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Por que temem tanto que Lula fique livre para disputar 2018. Fotos: Ricardo Sttuckert/Instituto Lula

LULA, O VIRA-LATISMO E A IMPOTÊNCIA DA HISTÓRIA

Ignacio Godinho Delgado*, no Facebook

Lula é, dentre as personalidades políticas brasileiras, a que mais foi distinguida com prêmios e homenagens advindas de organismos multilaterais, universidades, órgãos de imprensa e associações culturais e representativas de interesses diversos por todo o mundo.

Em todos os cantos do planeta é respeitado pelas políticas de inclusão desenvolvidas no Brasil e pelo protagonismo que o país passou a desempenhar no cenário global.

Sua presença na presidência da República projetou, no mundo, uma imagem positiva do Brasil, visto como um país democrático, cujas instituições suportavam a ascensão de uma liderança de esquerda em sua direção e que, finalmente, procurava enfrentar seus seculares dilemas sociais através de um governo que dialogava com todos os atores sociais e políticos.

No Brasil, Lula foi decisivo para dar forma orgânica à participação dos trabalhadores na cena política nacional, a partir do final dos anos 1970, elemento que, na maioria absoluta dos países desenvolvidos, foi essencial à combinação de dinamismo econômico e bem-estar social.

Mas sua liderança, com o tempo, ultrapassou o meio sindical, forjada num aprendizado contínuo das mazelas brasileiras e no diálogo com múltiplos atores, durante as décadas de 1980 e 1990.Tornou-se, assim, quando assumiu a presidência em 2002, o primeiro dirigente brasileiro capaz de propor um pacto nacional pelo desenvolvimento e o bem-estar.

Como se anunciava, em 2004, no Plano Plurianual 2004-2007, o propósito era estabelecer “um processo de crescimento pela expansão do mercado de consumo de massa e com base na incorporação progressiva das famílias trabalhadoras ao mercado consumidor das empresas modernas”, num jogo de soma positiva, que tanto favorecia a elevação da renda derivada das ocupações formais e a inclusão de segmentos secularmente à margem do mercado de trabalho e consumo, quanto criava estímulos para a atividade empresarial, mirando sua modernização e elevação da disposição de inovar (BRASIL-MPOG. “Plano Plurianual 2004-2007- Mensagem Presidencial”. Brasília, 2003, p. 17).

Liderança hábil, enfrentando a oposição sistemática da mídia e as crises que esta forjava ou magnificava, além, a partir de 2008, das turbulências do cenário internacional, Lula encerrou seu mandato com o orgulho nacional elevado, o Brasil respeitado em todo o mundo, na condição, que ainda mantém, de presidente mais bem avaliado da história do país.

Evidentemente que é possível apontar limitações importantes na atuação de Lula no governo.

Medidas no plano econômico poderiam ter conduzido a uma redefinição suave e progressiva da política macroeconômica, de modo a contornar a armadilha da dobradinha juros elevados/sobrevalorização cambial, que arrefecia os impactos das políticas levadas a efeito desde 2004 (com o anúncio da Política Industrial Tecnológica e de Comércio Exterior – PITCE), as quais restabeleciam papel mais ativo do Estado na promoção do desenvolvimento, reafirmado em programas como o PAC e a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), de 2007 e 2008, para nomear apenas algumas das iniciativas de maior abrangência nesta direção.

No plano político, por seu turno, a tibieza em colocar na agenda pública temas como a reforma política e a regulação democrática dos meios de comunicação, impediu o que poderia ser, pelo menos, um debate amplificado, na sociedade civil, dos problemas que obstruem a operação mais efetiva da ordem democrática no Brasil, mesmo com as dificuldades para seu encaminhamento na esfera parlamentar. De todo modo, conquanto importantes e mesmo decisivas, tais ausências não reduzem o significado histórico dos governos de Lula, ao colocar a inclusão social no centro da agenda pública.

Parte de nossas elites econômicas e a oligarquia midiática nunca entenderam a dimensão da figura histórica de Lula, embora seus parceiros partidarizados do Ministério Público e da magistratura busquem sempre tirar uma casquinha na sua popularidade, apresentando-se como caubóis tropicais ungidos da missão de salvar o pais de sua presença.

A mixagem de um elitismo ressentido com uma postura vira-lata, que ama e incensa e a subalternidade, alimentou a disposição feroz de destruir um dos mais importantes símbolos nacionais do Brasil. O mote é o mesmo de todas as empreitadas da direita brasileira contra forças políticas populares e/ou nacionalistas: denúncias seletivas de corrupção, que não se preocupam em debelar suas raízes institucionais.

A Operação Lava Jato foi a maior aposta nesta direção. Todavia, passados dois anos, depois de inúmeras delações premiadas de pessoas submetidas a procedimentos judiciais medievais, segundo as palavras de um ministro do STF, nada de relevante se apurou contra Lula, a não ser que se leve a sério as ridículas alegações que envolvem um sítio em Atibaia e um apartamento no Guarujá.

Cadê as contas secretas e as variações patrimoniais inexplicáveis? Nada.

Mas não importa, o que interessa é destruir a reputação do maior líder popular da história brasileira, como parte da estratégia fascista de liquidação da identidade política dos trabalhadores, associada à sua imagem e ao partido que ajudou a construir.

Na denúncia agora aceita pela Justiça Federal em Brasília, apenas a palavra de Delcídio do Amaral, um triste personagem, pusilânime, que, na bacia das almas, premia os algozes de Lula, para salvar-se das consequências de sua parceria com os operadores do esquema de corrupção na Petrobrás, existente desde quando ocupava postos de direção na empresa, no governo de Fernando Henrique Cardoso.

O propósito imediato da caça a Lula é sua retirada da disputa em 2018. Um golpe a mais para complementar o impedimento de Dilma, conduzido sem qualquer sustentação jurídica, reeditando um comportamento padrão da direita brasileira: a violação sistemática da democracia e o desrespeito a uma de suas regras básicas que é constituição de governos legítimos a partir da vontade soberana manifesta nos resultados apurados nas urnas.

No juízo da história é isso que prevalecerá: em 2016 deu-se um golpe e preparou-se outro, para 2018. A imagem de Lula e sua presença no coração do povo brasileiro também serão preservados.

A versão da mídia, tal como ocorreu em 1954, com Vargas, será insuficiente para apagar a dimensão e o significado de sua presença na vida brasileira.

Todavia, de golpe em golpe, esvaziam-se as possibilidades de o Brasil afirmar-se como nação soberana, desenvolvida e justa. Não há consolo. A vingança da história é impotente.

*Ignacio Godinho Delgado é Professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nas áreas de História e Ciência Política, e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED). Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012.

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Publicação de: Viomundo