escravos

por Gerson Carneiro

Cristiano Alves dos Santos.

Eu, Gerson Carneiro, não o conheço pessoalmente.

Jovem, negro, pobre. Morador de uma comunidade na cidade de Santos-SP.

Há aproximadamente quatro anos, prestou vestibular para o curso de Enfermagem em um universidade pública em Ribeirão Preto. Foi aprovado. E não tinha dinheiro para sair de Santos e ir a Ribeirão Preto efetuar a matrícula e muito menos por lá se estabelecer. Foi aí que Cristiano Alves dos Santos
entrou na minha vida.

Através de uma campanha, feita por pessoas aqui no facebook ideologicamente alinhadas ao governo do Lula, para arrecadar fundos para ajudar o Cristiano, tomei conhecimento de sua História e participei. Foram arrecadados pouco mais de três mil reais, o que possibilitou ao Cristiano dar continuidade ao seu projeto de vida.

Um pouco à frente, já cursando, Cristiano, de namorico com uma jovem estudante universitária, entrou em contato e me pediu dinheiro para recebê-la em um final de semana. Novamente, pensando em sua realização pessoal, com todo contentamento contribui.

Cristiano me chamava de “padrinho”. Termo este que nunca me agradou. “Padrinho” parece coisa de máfia. E dizia que um dia iria retribuir, ao que sempre eu respondia: – Estude, torne-se alguém e ajude a transformar a vida dos que ficaram lá, de onde você veio. Essa é a melhor retribuição.

Ficamos um tempo sem nos comunicar. Há aproximadamente seis meses o Cristiano apareceu.

Bolsista do CNPq. Continua estudando. Mas eu não reconheci o Cristiano. Agora admirador do Bolsonaro, Kim Kataguiri e Fernando Holiday, Cristiano virou agente propagador de calúnia, difamação e injúria contra o governo que proporcionou a ele a possibilidade de se tornar estudante universitário. Começou a pensar que a mudança em sua vida é fruto unicamente do seu esforço pessoal.

Cristiano Alves dos Santos foi ideologicamente capturado por quem determinou que ele fosse morador de uma Comunidade pobre em Santos mas não possibilitou que ele de lá saísse.

A realidade crua e triste é essa. Tendo saído da situação social em que se encontrava, ao invés de lutar para resgatar outros que lá ficaram, o indivíduo passa a ser agente do opressor.

Por diversas vezes tentei dialogar com o Cristiano e mostrá-lo que do pessoal que hoje ele exalta, ninguém contribuiu efetivamente para a mudança real na vida dele.

A impressão que tenho é que convivendo com jovens menos desprovidos das carências sociais, os Cristianos, para se sentirem aceitos e integrados nos novos grupos sociais, passam a negar as origens.

Cristiano sempre dizia que me convidaria para ser padrinho em sua formatura.

Entre os doadores da campanha citada no início do texto, havia homossexuais.  Hoje os homossexuais também estão no alvo dos ataques do Cristiano.

Perdi o Cristiano para o Bolsonaro.

Infelizmente não poderei mais comparecer à formatura do Cristiano.

Ontem, com tristeza, me senti obrigado a bloqueá-lo.

Apesar de tudo, ainda considero o Cristiano vítima do mecanismo opressor.

PS: eu, pobre, na adolescência, fui salvo por alguém que me deu oportunidade através da Educação. Sou eternamente grato, e enquanto puder, sempre vou contribuir para que pessoas com oportunidades reduzidas de acesso à Educação tenham chance de  modificar para melhor as suas vidas, apesar dos Cristianos. Um só que souber aproveitar e transformar o mundo para melhor, terá valido a pena.

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Publicação de: Viomundo