2018

Neste ano, sete países vão escolher novos presidentes; cenário é indefinido quanto à retomada da esquerda na região

Emilly Dulce |
Eleições municipais na Venezuela, em 2017 AVN

Para a América Latina, 2018 será um ano crucial para a política regional e internacional. Seis países irão passar por eleições presidenciais importantes, como é o caso de Brasil, México, Colômbia e Venezuela. Além disso, Cuba terá, pela primeira vez desde o triunfo da Revolução, a escolha, pela Assembleia Nacional, de um presidente que não integra a família Castro.

Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), as eleições na América Latina se situam em um contexto de embate entre a supremacia estadunidense e a autonomia dos povos latino-americanos:

“De um lado, [temos] o esforço dos Estados Unidos de restabelecer a supremacia d e seus interesses na América Latina e reforçar o poder das classes dominantes por meio de políticas neoliberais. E do outro lado, a resistência dos povos da América Latina na busca por maior autonomia, por melhores condições de vida, por maior igualdade social e desenvolvimento econômico”, ressalta.

Nesse sentido, a região acompanha com atenção o processo eleitoral no Brasil. A votação é considerada por especialistas como uma das mais imprevisíveis desde a redemocratização do país.

A jornalista peruana, que trabalha como correspondente internacional, Veronica Goyzueta define a imprevisibilidade como ponto comum em todas as eleições latino-americanas. Ela destaca os cenários eleitorais no Brasil e no México como fundamentais para a definição do contexto regional: “Caso Lula seja candidato no Brasil e caso [Andrés Manuel] López Obrador consiga ganhar no México, a gente vai ter uma virada de dois governos que são super importantes”.

De acordo com ela, os cenários fragmentados ainda não revelam a possível tendência de renovação da esquerda ou de avanço do conservadorismo no continente.

O jornalista pós-graduado em Políticas e Relações Internacionais José Reinaldo Carvalho aponta que as forças no México estão divididas, o que pode dificultar a vitória de López Obrador, fundador e atual líder do partido de esquerda Morena (Movimento de Regeneração Nacional).

“O que está em jogo no México é a velha luta para que as forças democráticas, populares, patrióticas, anti-neoliberais, consigam derrotar o governo neoliberal do Peña Nieto”, diz.

Além do México, Carvalho ressalta a importância das eleições na Colômbia como forma de “redesenhar o mapa político latino-americano”. Ele lembra que será a primeira eleição presidencial após a assinatura do acordo de paz que pôs fim a meio século de guerra civil no país.

“Antes da questão direita/esquerda e antes da questão neoliberalismo/não neoliberalismo, o problema principal é se as eleições vão garantir a continuidade do processo de paz, que infelizmente já está muito ameaçado mesmo antes das eleições”, ressalta.

Na Colômbia, a última pesquisa de intenção de voto registra liderança do candidato Sergio Fajardo, ex-prefeito de Medellín, que se apresenta como um independente “nem de esquerda, nem de direita, nem de centro”.

O jornalista José Arbex Jr. destaca a questão venezuelana como dramática, “não apenas pela conjuntura atual de crise, mas por tudo o que o bolivarianismo de Hugo Chávez representou na história recente da América Latina”. “O que está em disputa na Venezuela não é a simples condição do país e o controle do petróleo nacional. Está em disputa a perspectiva histórica aberta pelo bolivarianismo. Nesse sentido, a eventual derrota na Venezuela representará, simbolicamente, um golpe muito profundo nas esquerdas do hemisfério”.

Cuba também vai determinar, em março, quem sucederá o presidente Raúl Castro. A eleição no país se dá em um processo indireto, com a indicação do mandatário pelo Congresso eleito pelo povo.

Outros dois países ainda vão passar por eleições presidenciais no ano de 2018: Costa Rica, em fevereiro, e Paraguai, em abril.