Da Redação

Em fevereiro de 2018 este blog publicou uma entrevista feita pela filósofa Katarina Peixoto com a professora francesa Armelle Enders.

Enders é professora titular na Université Paris 8 e pesquisadora do Institut d’histoire du Temps Présent (IHTP), associado ao Laboratário da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com a pesquisa “Redes de poder e relações culturais” e ao Programa de Apoio a Núcleos de Excelência “Caminhos da política no Brasil Imperial”.

As perguntas de Katarina aparecem em negrito e as respostas de Enders em itálico. As outras observações são nossas.

Na data da entrevista, falava-se ainda sobre uma possível vitória de Jair Bolsonaro nas eleições. O ex-presidente Lula ainda não estava preso e era o candidato em potencial do PT.

Armelle Enders revelou, então, preocupações de fundo que continuam valendo, passados quase dois anos: Lula está livre, mas a TV Globo já lidera uma campanha para recolocá-lo na cadeia, através de uma improvável mudança constitucional.

Não há 2/3 dos votos para fazer passar a prisão em segunda instância no Congresso, mas o bolsonarismo e o lavajatismo vão prosseguir  no show midiático de “perseguir a corrupção” — apesar da Vaza Jato e dos laranjais do PSL em Minas e Pernambuco — pois é o único discurso de poder que lhes resta para as eleições vindouras.

Já a extrema direita flerta abertamente com um novo golpe de 64.

O que me preocupa é a onda conservadora, e até reacionária, que se espalhou no Brasil e que vem das profundezas da sociedade. Temo que o Brasil tenha poucos anticorpos contra o autoritarismo, disse Enders na entrevista.

Profundezas da sociedade. Aparentemente, ela se referia à base social nada desprezível de Jair Bolsonaro, tendo como pilar central o agronegócio ideologicamente mais retrógrado — além da bala (centenas de milhares de policiais e seus familiares) e da Bíblia.

Milhões de fiéis ultraconservadores de diversas denominações hoje expressam de desconforto a ódio com a quebra de hierarquias e buscam um pai regenerador.

Querem de volta a família “tradicional”, num país em que milhões de mulheres criam sozinhas seus próprios filhos, abandonadas por ‘cidadãos de bem’.

Naquela entrevista, uma resposta de Enders em particular nos chamou a atenção:

Quais são as linhas de força em jogo no atual cenário político brasileiro? Percebe algum elemento novo, na história do século XX do país, que ajude a entender a peculiaridade, se há alguma, da crise atual?

A questão é que podem barrar a candidatura do Lula, podem prendê-lo, mas não vão tirar a liderança dele.

Nem matá-lo lograria acabar com influência do Lula.

Há de se lembrar como Getúlio Vargas assombrou a república depois de 1954.

Sem Lula, a direita tradicional deve achar que se abre a estrada rumo ao Planalto, mas sempre se deu muito mal com o voto direto na história política brasileira.

Em 1960 e 1989, chegou na presidência por via de outsiders incontroláveis (Jânio, Collor) e deu o que deu, tiveram de sair.

O que salta aos olhos é mais a repetição de uma trama já conhecida do que novidade: um “udenismo”, forte no Congresso e buscando a implementação do parlamentarismo, a desqualificação da esquerda acusada de ser corrupta e autoritária, o debate entre “nacionalismo” vs. “entreguismo”, tudo isso é o velho enredo da política do Brasil desde 1946.

Espanta a volta do anticomunismo no Brasil como se fosse o auge da Guerra Fria!

Na verdade, como historiadora, o clima de hoje me permite entender mais o ambiente pré-golpe de 1964.

A novidade, por enquanto, estaria mais no constitucionalismo formal e aparente.

Parece que está tudo funcionando normalmente, mas como André Singer, com toda razão, o enfatizou, tirar a esquerda do páreo é suprimir a alternância política, e, portanto, o debate entre várias opções, que é a base da democracia.

O pior é que o golpe colocou em xeque a política lulista de conciliação e o reformismo, que foram tão censurados pelas outras esquerdas como compromissos inúteis. É trágico para a democracia.

Para mim, o legado mais importante do lulismo é uma narrativa da história do Brasil.

A política social pode ser desmantelada (e já foi em grande parte), mas a ideia que o Brasil podia superar, sem massacre nem violência, a oposição entre a Casa Grande e a Senzala, afirmar sua soberania e virar uma potência mundial.

Enders também estabeleceu uma relação entre o Brasil e outras democracias liberais “em desvio” — em tempos de transferência de ideias e slogans raivosos em altíssima velocidade pelas redes sociais, observação nossa.

Há um mal estar econômico que é planetário. Somado à hiperconectividade.

Sobre as democracias “em desvio”, disse:

Fala-se de democracias “illibérales” a respeito da Turquia, da Hungria, da Polônia.

Vê-se o crescimento de direitas radicais, ou chamadas de “populistas” (apesar do “populismo” ser cada vez mais uma noção confusa), ou autoproclamadas “alternativas”.

Uma jornalista lançou recentemente um livro que define a vitória do Trump como “a revanche do homem branco”.

Algo parecido está em marcha no Brasil e toma formas diversas: revolta da classe média contra o PT, anti intelectualismo, patrulhamento, censura, caça às bruxas LGBT, poder dos evangélicos…

O que acontece no Brasil é a vertente local da crise provocada pelas transformações devidas à globalização.

Como tudo é exagerado no Brasil, o país me parece um observatório ideal para entender melhor o resto do mundo.

Em 2016, você escreveu sobre o que chamou de “implosão da nova república”, no Brasil. Após a implosão e, chegados a uma catástrofe, o que imagina teremos pela frente? Acredita na possibilidade de um fechamento político maior? (a pergunta é especulativa, não se trata de previsão, obviamente).

Num artigo famoso de 1988, Sérgio Henrique Hudson Abranches já tinha apontado o calcanhar de Aquiles do “presidencialismo de coalizão”: a inexistência de mecanismo de regulação em caso de desentendimento entre o Planalto e a própria situação, a base aliada, daí os impedimentos que ocorreram com o Collor e com a Dilma.

Como uma das características da “Nova República” é a fragmentação partidária, que só foi piorando, a situação se sustenta pelo fisiologismo.

Quando a torneira se fecha, por qualquer motivo (crise e escassez de dinheiro, tentativa de moralização ou desorganização dos circuitos de corrupção…).

Todos os poderes saem desmoralizados dessa crise sem fim.

Num quadro de poderes desmoralizados, de descontentamento econômico hiperconectado, de uma mídia concentrada e de uma base para soluções autoritárias que deixou de ser provinciana, para com Bolsonaro se articular em rede nacional, não corremos risco real de um golpe dos pobres de direita?

O poder moderador atuou. Basta? Fábio Rodrigues PozzebomAgência Brasil

O fato é que o presidencialismo de coalizão sob Bolsonaro está em crise. O dinheiro para sustentá-lo é escasso. O presidente vive acuado pelo Centrão.

Transportando grosseiramente para os anos 60, é a UDN (Bolsonaro) em frangalhos (leia-se Witzel), o PSD (Rodrigo Maia) tentando se articular para chegar ao poder com Luciano Huck e o PTB (Lula, Ciro, Boulos) fragmentado, tentando se reerguer depois de uma sova política — não nas urnas, mas no golpe de 2016.

Um quadro de fragmentação política numa conjuntura econômica ruim clama por saídas autoritárias.

Hoje a conjuntura é duplamente negativa: a economia brasileira patina num quadro internacional sombrio, de possível retração generalizada.

Só o agronegócio nas bases ideológicas mais retrógradas salva o Brasil neste momento; lá fora, mesmo a dependência mútua da China e dos Estados Unidos sofre tremores na disputa por mercados.

Vamos ouvir alguns “conselhos” de Enders para entender a questão política.

Quem olha de fora da bolha às vezes enxerga melhor.

Se estivesse diante de historiadores brasileiros, ainda em bancos universitários, o que recomendaria para eles buscarem entender o que se está vivendo, no país, hoje?

Recomendaria que se pratique mais história social do que história cultural, que a história saia das grandes cidades para entender melhor as sociedades das cidades médias ou pequenas.

Nós, intelectuais de classe média mediana, moramos numa ilha e temos tendência a recriar um mundo a nossa semelhança.

Temos que entender as resistências ao que achamos progresso e o apelo do que encaramos como retrocesso.

Recomendaria ler trabalhos sobre os movimentos antiliberais, especialmente os oriundos do povo, desde a revolução francesa.

Na sua opinião, qual a força real hoje das organizações políticas e movimentos sociais que estão na resistência ao golpe?

Pelo visto, a resistência contra o golpe é fraca, mobiliza pouco.

A esquerda está em migalhas e, sem Lula, esfacela-se ainda mais.

Há de se convencer de um fato: a esquerda é minoria num Brasil muito conservador.

A esquerda sofreu uma baixa terrível com o golpe e o fracasso da conciliação lulista, mas, por outro lado, não há outra possibilidade para voltar a ser governo que fazer alianças.

Publicação de: Viomundo