Paulo Guedes, ministro da Economia, não entende nada de política. A rigor, vamos ser claros, ele nem mesmo aceita a sua legitimidade. No momento em que deveria ser solução, vira parte do problema. É evidente que não vai conseguir fazer a reforma dos sonhos. De toda sorte, se o texto a que chegou Samuel Moreira (PSDB-SP), o relator, não é exatamente o que esperava o ministro, que, então, diga isso a seu chefe, o presidente, e este que se organize para conseguir mais. Convenham: havia uma certa surpresa no ar. Muitos consideraram que o relator até fez mágica. Privilégios para servidores foram mantidos – algo a se negociar -, mas a espinha dorsal da reforma está aí.

Em vez de Guedes saudar o avanço e chamar a atenção para a necessidade de medidas adicionais, ele tem uma reação mal-humorada, um tanto rancorosa, como se tivessem aprovado o pior texto do mundo. E isso é falso.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou nesta sexta (14) que a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo relator Samuel Moreira (PSDB-SP) cede a privilégios e aborta a proposta de capitalização, gerando necessidade de nova reforma no futuro.

E daí que uma nova reforma se faça necessária mais adiante? O país vai acabar? De resto, trata-se apenas do relatório, e alguém com um mínimo de vivência faria o óbvio: “Vou tentar negociar para recuperar a minha proposta original”. Iria conseguir? Provavelmente não. Até porque o texto deve ser ainda mais desidratado. Mas se criaria ao menos uma tentativa de contenção. Em vez disso, ele sai chutando o balde. É um governo que nunca precisa de oposição para atrapalhá-lo.

“Eles [parlamentares] mostraram que não há compromisso com as novas gerações. O compromisso com os servidores públicos do Legislativo foi maior do que o com as novas gerações”, criticou Guedes, em entrevista após deixar evento no Rio. Não é aceitável que um ministro de Estado diga isso. Ponto. Só tem compromisso com a nação, então, quem concorda com Guedes. Se privilégios estão sendo mantidos, não é hostilizando os parlamentares que estes vão ser suprimidos.

O relatório apresentado nesta quinta por Moreira manteve pilares considerados importantes pelo governo, como a idade mínima, mas mudou as regras de transição para funcionários públicos e retirou estados e municípios do debate. Guedes, pois, deveria estar saudando os aspectos positivos e se organizando para garantir as mudanças que julga importantes. Em vez disso, resolveu ter chilique.

“Eu acho que houve um recuo que pode abortar a Nova previdência. As pressões corporativas de servidores do legislativo forçaram o relator a abrir mão de R$ 30 bilhões para os servidores do legislativo que já são favorecidos no sistema normal”, disse Guedes. O ministro da Economia defende que a economia de R$ 1,2 trilhão em dez anos era fundamental para instituir o modelo de capitalização na Previdência dos brasileiros que ainda não entraram no mercado de trabalho.

Pois é… Também nesse caso havia um truque. Falava-se de economia de R$ 1 trilhão, lembram-se? Só quando o governo foi obrigado a abrir as contas, descobriu-se que o valor chegava a R$ 1,2 trilhão. Nesta sexta, ele disse que esperava que o Congresso alterasse sua proposta para mudanças no BPC (o benefício para idosos) e na aposentadoria rural, o que garantiria economia de R$ 1 trilhão, mas não previa o recuo na regra de transição.

“Recuaram na regra de transição e como ia ficar feio recuar só para os servidores, estenderam também para o regime geral é isso custou R$ 100 bilhões”, afirmou, calculando a economia da nova proposta em R$ 860 bilhões, contra os R$ 913 bilhões divulgados pelo relator. O relator é um defensor entusiasmado da reforma. Fez o possível, ora bolas! E agora que se proceda à luta no plenário da Câmara e do Senado. Trata-se de uma reação fora do tom; trata-se de conflito gratuito. O que Guedes espera? Governar sem ter de negociar com o Congresso?

“Não são mais de R$ 900. Aí estão colocando imposto sobre banco e isso é política tributária. Estão buscando dinheiro de PIS/PASEP, mexendo nos fundos. Estão botando a mão no dinheiro do bolso dos outros”, disse o ministro. Com esse número, diz Guedes, o país precisará de nova reforma no futuro. “Para o governo Bolsonaro, está resolvido. Levantou os R$ 860 bilhões, está tudo resolvido. Mas aí daqui a cinco ou seis anos tem outra reforma.”

Fica tudo meio atrapalhado. Em primeiro lugar, os R$ 860 bilhões dizem respeito a 10 anos e vão além do governo Bolsonaro, ainda que reeleito. Em segundo lugar, que se faça outra depois. As coisas da democracia são assim mesmo. O ministro disse que, com a proposta atual, não faria diferença incluir a capitalização no texto final, já que a economia não é suficiente para permitir a migração para o novo regime.

“Isso significa que continuam com a velha Previdência. Se sair só esse corte que o relator acenou, o que ele está dizendo é: ‘abortamos a nova previdência e gostamos mesmo da velha previdência e cedemos ao lobby dos servidores públicos que eram justamente os privilegiados.’” Percebam o tom meio apocalíptico do ministro da Economia. Parece que uma grande tragédia se abateu sobre o país. Eis o ponto. Nós temos um ministro da Fazenda que também hostiliza o Congresso. Pudesse, faria a reforma da Previdência por decreto.

Essa gente tem a chance realmente extraordinária de dar passos importantes para corrigir distorções que há muito atormentam o país. Mas a intolerância política não deixa. Não que o relator precise disto, mas o fato é que Guedes deveria estar aplaudindo o seu trabalho e se organizando para tentar obter o que deseja. Em vez disso, vitupera contra todo mundo. E, como se sabe, a reforma tende a ser menor do que a proposta pelo relator. Que se note: não fossem a vaidade o bonapartismo, a que o ministro da Economia também não é alheio, ter-se-ia dado continuidade à reforma proposta pelo governo Temer. E, a esta altura, já estaria aprovada.

De UOL

 

 

 

 

 

 

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