A China se destaca entre o elenco de inimigos comunistas que Jair Bolsonaro prometeu combater durante a campanha eleitoral. Como presidente, esse tom diante do principal parceiro comercial do Brasil desapareceu. O ultradireitista parece enfrentar o dilema clássico entre o que o coração pede e o que o bolso dita; entre o seu instinto de alinhar-se completamente com os EUA e, seguindo seus passos, virar as costas à China ou adotar uma posição pragmática perante o regime comunista. O mandatário esteve nos EUA nesta quarta-feira (para receber um prêmio que, em face dos protestos, teve que ser transferido de Nova York para Dallas) e seu vice-presidente, o general da reserva Hamilton Mourão, aterrissa neste domingo na China. Ambas as viagens permitirão ver onde o Brasil se posiciona ante as duas potências globais e na disputa comercial entre os dois gigantes.

A segunda viagem do presidente brasileiro aos Estados Unidos — depois da frutífera visita a seu homólogo, Donald Trump, em março — tem um gosto amargo. Suspendeu a visita a Nova York para receber o prêmio de Personalidade do Ano, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, depois que sua política para a Amazônia se deparou com fortes protestos de cidadãos que resultaram em um boicote de empresas (incluindo a Delta Airlines e o Financial Times) e uma guerra verbal com o prefeito, o democrata Bill de Blasio.

A cerimônia foi transferida para Dallas, onde foi fotografado ao lado de George W. Bush. Bolsonaro foi acompanhado por cinco ministros, incluindo os de Relações Exteriores, Economia e Minas e Energia. Outro objetivo da visita era atrair investimentos, embora esta seja uma tarefa cada vez mais complicada porque as últimas previsões indicam que o crescimento do Brasil será menor do que o esperado quando ele assumiu o poder.

O novo Governo brasileiro, que tomou posse em janeiro, continua sua aproximação de Washington, mas sem a ruptura que pareciam pressagiar gestos como a visita que o ultradireitista fez durante a campanha a Taiwan, para irritação de Pequim. Ou quando, para criticar a voracidade chinesa, proclamou que “a China não compra no Brasil, está comprando o Brasil”.

Mas, no terreno, uma realidade diferente se impõe. O general Mourão está há meses repetindo a seus interlocutores que “o Brasil não vê a China como uma ameaça, mas como um parceiro estratégico, o que o levou a desativar a bomba armada pelo capitão” Bolsonaro, de acordo com Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas. Bolsonaro anunciou que viajará para Pequim no segundo semestre do ano. Além disso, o presidente Xi Jinping virá a Brasília em novembro para a cúpula dos BRICS.

Este especialista explica que dois fatores influenciaram Bolsonaro para que pusesse de lado seu discurso antichinês. Um, a mobilização do setor agropecuário e da ministra da Agricultura, Teresa Cristina Dias, para deixar claro, segundo Stuenkel, que “uma posição anti-China tem um custo econômico significativo que uma aproximação dos EUA não será capaz de compensar”.

Há uma década, a China ultrapassou os Estados Unidos como o principal parceiro comercial do Brasil. O superávit da balança comercial com o gigante asiático foi no ano passado de 29,5 bilhões de dólares. Com os EUA houve um déficit de 193 milhões, segundo cifras oficiais. E, apesar da guerra comercial em que ambos os gigantes estão engajados, as exportações brasileiras para a China dispararam, passando a 64 bilhões. O país vende para Pequim principalmente matéria-prima, com a soja bem destacada, e compra produtos manufaturados.

De acordo com o especialista da Fundação Getúlio Vargas, o outro fator para que o presidente brasileiro abaixasse o tom é que atacar os chineses não gera créditos políticos na base bolsonarista, ao contrário do que acontece entre os trumpistas. É politicamente muito mais lucrativo para o Trump tropical atacar os progressistas ou as universidades.

Do El País

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