São Paulo

Escolas que priorizavam refeições balanceadas passam a servir alimentos como achocolatado e bolo

Cecília Figueiredo |
"Apesar da boa aceitação do leite com morango, substituíram pelo frapê de chocolate. As crianças não aceitaram!", diz merendeira Foto: Montagem/Centro de Referências em Educação Integral

Quase três anos depois da instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Merenda, que investigou na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) por sete meses o superfaturamento nas merendas escolares da rede pública, a única mudança substancial no processo de fornecimento foi a aquisição de ultraprocessados em substituição aos alimentos in natura.

Educadores e merendeiras questionam a mudança promovida pelo governo João Doria (PSDB), que é considerada um retrocesso em relação ao que vinha sendo implementado pelo governador anterior, Geraldo Alckmin (PSDB).

Projeto suspenso

A proposta de incluir no cardápio dos estudantes apenas alimentos in natura foi liderada pela chef de cozinha Janaína Rueda em 2016, por meio do projeto Cozinheiros da Educação. Conforme matéria publicada na última semana pelo jornal Folha de S.Paulo, o projeto está suspenso. A Secretaria de Educação negou a informação em entrevista ao Brasil de Fato.

O trabalho voluntário de Rueda, que consistia na mudança dos cardápios e na substituição de produtos industrializados, começou a partir de um convite do então secretário de Educação do governo Alckmin, José Renato Nalini. “Eu não sabia nada sobre merenda escolar, não entendia nada. Não tinha ideia nem do que as pessoas comiam”, lembra a chef de cozinha.

Ao verificar o tipo de alimento servido às crianças – produtos com validade de um a dois anos, “bushes” ou “caixas de ração”, como classifica a cozinheira –, Rueda se dispôs a ajudar, desde que houvesse a inclusão de alimentos in natura. O governo aceitou. “Você tinha uma compra de produtos em grande escala, que durariam o mês inteiro, enlatados, caixas de ração tipo Whiskas [marca de ração de gatos]. Fiquei numa escola-piloto por 20 dias, [chegando] às seis da manhã, voltando à tarde e à noite, na Escola Maria José [no centro de São Paulo]”.

Para dar agilidade ao projeto Cozinheiros da Educação, implantado em 2 mil escolas da capital paulista e da região metropolitana, foi feito um convênio com a Escola Técnica Estadual (ETEC). Em seguida, foram escolhidas cozinheiras de escolas para participar de oficinas, e somente então formalizar a licitação da compra dos produtos in natura: “A gente conseguiu fechar [oficinas para] toda a capital, com cardápio que era feijoada, carne de panela… Agora, a gente estava expandindo esse projeto para o Grande ABC, de junho [de 2018] para cá”.

Em setembro do ano passado, o profissional responsável pelas compras, segundo ela, foi exonerado — supostamente, por problemas técnicos. “Em dezembro, cancelaram dois treinamentos e falaram que eu tinha que esperar. Em janeiro, quando eu mais dava treinamentos porque elas [cozinheiras] estavam de férias, ninguém me ligou, as pessoas da secretaria [de Educação] foram todas exoneradas e eu perdi o contato”.

Estado nega mudanças, mas educadores confirmam

Ao buscar justificativas, Rueda diz ter sido informada que o projeto havia acabado. A Secretaria de Estado da Educação, por sua vez, nega que houve alterações nos cardápios e suspensão do projeto. “Não houve encerramento do projeto. Não houve alteração no cardápio para alimentos processados”, dizem as respostas encaminhadas ao pela assessoria de imprensa à reportagem.

Uma das merendeiras de escola estadual do Itaim Paulista, periferia da Zona Leste, que não quis se identificar temendo represálias, admite que houve alterações em relação às proteínas e hortaliças: “A carne que não era enlatada. Tinha que ser selada antes de ser cozida. Só que fazer com dois quilinhos, três quilinhos [de carne] é uma coisa. Agora, chegar de manhã e selar 25, 30 quilos de carne para, só depois, colocar para cozinhar, fica mais difícil né? A gente conseguia colocar na panela, com os temperos e ia fritando, para descongelar e servir”.

A merendeira reconhece, porém, a qualidade do cardápio do projeto anterior. “Eram merendas muito diferenciadas, por exemplo, salada de ervilha, salada de lentilha, lentilha refogada. Coisas que o adulto não está acostumado a comer e fazer para as crianças. [Até o ano 2018] O governo mandava carne moída, coxão mole, picadinho, patinho, peixe. De repente, passou a ser arroz, feijão, ovo; arroz, feijão, farofa; feijoada vegetariana uma vez por semana, que era feijão com cenoura [único legume que enviam para a feijoada]. Mas, a gente tinha que olhar o cardápio e seguir”, relata a cozinheira.

No segundo semestre de 2018, “o cardápio ficou ruim” na escola. “Até o final do ano passado, ainda chegava carne. Em fevereiro [volta das aulas], ele [governo] mandou umas cinco vezes remessa de carne. No ano passado, não tínhamos onde guardar carne, de tanta que vinha. Este ano, sucrilhos de manhã e à tarde bolo. Assava bolo pela manhã, para servir à tarde, e de manhã dava leite com morango. Apesar da boa aceitação do leite com morango, substituíram pelo frapê de chocolate. As crianças não aceitaram muito e, ao ver que só tinha isso, eles perguntavam: mas, tia, só tem isso? Eles mesmos falam: tia, vou reclamar com o governo; tia, vou protestar”, lembra.

Os produtos não integram a lista das recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, referência para a gestão pública elaborada pelo Ministério da Saúde. A publicação orienta que se limite o consumo de alimentos processados ao mínimo e que se evite os ultraprocessados — aqueles com muitos ingredientes, principalmente os de nomes pouco familiares.

Um professor de uma escola estadual em Cotia (SP), que também pediu para não se identificar, disse que as frutas foram suprimidas da merenda. Segundo ele, “carne in natura ainda chega”, mas também muitos industrializados: “A merenda deve estar voltada ao crescimento da criança; para educação é muito importante. Houve uma tentativa de melhorar, por meio da chamada de chefs na gestão [Geraldo] Alckmin, e naquele momento teve frutas, legumes, carnes in natura. Nós sabemos que os alunos, muitas vezes, têm na alimentação escolar sua única refeição, e é importante seguir a recomendação do Guia de Alimentação do Ministério da Saúde”.

Protestos

Diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Nilcéa Fleury Victorino defende a utilização de alimentos frescos. “Essa política [do governador João Doria] foi a política que ele tentou implementar na Prefeitura de São Paulo. Tentou, inclusive, ser mais agressivo, entrar com a ‘ração humana’, gerando um amplo protesto de todo mundo, não só dos sindicatos, mas de toda a população. E agora ele está fazendo isso nas escolas estaduais”, critica a sindicalista.

O deputado estadual Alencar Santana (PT-SP), que integrou a CPI que investigou entre maio e dezembro de 2016 a chamada “máfia da merenda”, concorda que a merenda servida atualmente em São Paulo “ofende” as legislações nacionais. “Os governos tucanos não tem priorizado alimentação escolar saudável, não cumprem as legislações nacionais que tratam de um mínimo de compra [de produção] da agricultura familiar. Então, não tratam a alimentação como processo educacional, ensinando as crianças e jovens a melhor maneira de se alimentarem. E, ao mesmo tempo, não oferecem uma alimentação boa”.

Santana entende que a opção do governo Doria não apenas prejudica a saúde púbica, como parece privilegiar as grandes empresas. “O que se deduz é que [o governo] continua privilegiando as grandes empresas [do ramo alimentício], que foram reveladas – parte dela – durante a CPI da Merenda. É lamentável que isso continue acontecendo no estado de São Paulo. Iniciativas boas [Projeto Cozinheiros da Educação] estão sendo jogadas no lixo, novamente, por parte do governo que está priorizando seus parceiros”.

No próximo dia 22 de março, a partir das 17h, a Apeoesp programou um protesto no vão livre do Masp, em que a alimentação escolar estará entre as bandeiras de luta. 

Publicação de: Brasil de Fato – Blog