MASSACRE DE SUZANO, UM CRIME ANUNCIADO

por Lola Aronovich, no blog Escreva Lola, sugestão de Hudson Lacerda 

Passei quase todo o dia de ontem na rua, trabalhando, em Maceió. Mas, antes de deixar o quarto em que me hospedei, vi um comentário no meu blog, ainda pela manhã: “Grande dia, mas dois heróis morreram”. Só aí vim a saber do massacre de Suzano.

Ontem dois rapazes, um de 17 anos, outro de 25, invadiram a escola estadual Raul Brasil, em Suzano, interior de SP, e mataram cinco alunos do ensino médio (meninos entre 15 e 17 anos), a diretora e a inspetora da escola.

Antes, um deles havia matado o tio, para pegar o carro dele. Depois de toda a matança, ao ouvirem a polícia chegando, os dois se mataram.

Um horror, e o que eu mais temia: que, com a liberação das armas (uma promessa de campanha de Bolsonaro), com toda a propaganda a respeito de armas de fogo, esse tipo de massacre passasse a ser mais comum no Brasil.

Eu me lembro como se fosse hoje quando ocorreu o massacre de Realengo, em abril de 2011.

Eu estava na UFC, numa sala em que havia TV, e durante o intervalo eu e alguns funcionários assistimos, transtornados, a notícia de que um ex-aluno havia entrado na escola em que estudara alguns anos atrás e matado crianças.

Esse tipo de assassinato em massa, embora rotineiro nos EUA, nunca tinha acontecido no Brasil.

Mais tarde, vi que as vítimas, todas crianças entre 12 e 14 anos, eram dez meninas e dois meninos.

Estranhei a discrepância — por que tantas meninas mortas? Testemunhas disseram que o assassino atirava nas meninas pra matar, e, nos meninos, pra ferir. Mas a mídia até hoje não trata o massacre como um crime de ódio.

Já naquela época, tentei alertar que aquilo era um crime de ódio cometido por um misógino.

Citei vários massacres parecidos nos EUA. Eu já sabia que mascus existiam.

Mascu é uma abreviação que criei para masculinistas, que em países de língua inglesa se intitulam MRAs (ativistas pelos direitos dos homens), mas que na verdade são apenas homens frustrados e revoltados que vivem numa realidade paralela (para eles, a sociedade é dominada pelas mulheres, e as grandes vítimas da atualidade são homens brancos e héteros).

Ontem, oito anos depois de Realengo, quando ouvi falar de Suzano, não tive dúvida que era um crime de ódio.

E imaginava quem havia incentivado os assassinos, imaginava qual fórum na internet eles frequentavam. E não deu outra: era mesmo o Dogolachan.

Este fórum anônimo foi criado por Marcelo Valle Silveira Mello em 2013, pouco depois de sair da cadeia, onde havia passado um ano e três meses, e sido condenado a quase 7 anos de prisão.

Ele estava tão furioso que foi expulso de outros chans e começou o seu próprio.

Passou os cinco anos seguintes fazendo ameaças, criando novos sites de ódio, planejando como arruinar a vida de seus inimigos, tentando convencer outros a cometerem massacres, e cometendo dezenas de crimes (entre eles pedofilia, terrorismo, associação criminosa etc).

Em maio do ano passado, após cinco anos ininterruptos de impunidade, Marcelo finalmente foi preso novamente. E, em dezembro, foi julgado e condenado a 41 anos de cadeia.

Só que ele deixou toda uma quadrilha pra trás, e todos os membros da gangue continuam soltos. Um mês depois da prisão, o moderador do chan, André (conhecido como Kyo), deixou uma mensagem dizendo que iria se matar.

Ouviu em troca “Leve a escória junto”, ou seja, antes de se matar, mate alguém. E foi o que ele fez. Saiu às ruas da cidade onde morava (Penápolis, SP), atirou na nuca de uma moça que nunca tinha visto antes, e se matou. Virou herói entre o pessoal do Dogolachan.

Um pouco depois, o chan migrou para a Deep Web. Eu parei de acompanhar, já que para entrar lá tem que ter ferramentas como TOR, que eu não tenho. Continuei recebendo ameaças de morte e estupro.

O agradecimento de um dos assassinos a DPR, administrador do Dogolachan, ontem

Entretanto, durante os quatro anos e pouco que li o chan, posso dizer que não houve um só dia em que os membros não fantasiavam com o dia em que teriam acesso livre a armas de fogo.

Todos votaram em Bolsonaro, o candidato que lhes prometia isso. Eles sempre falavam em cometer massacres. Suponho que a tragédia de Suzano não seja surpresa nenhuma pra Polícia Federal.

Que os mascus do Dogolachan iriam comemorar o que aconteceu em Suzano, não havia dúvida.

Mas até que ponto eles estão envolvidos? Os atiradores eram frequentadores do chan?

Ontem recebi este email:

“Eu tenho alguns prints que provam que o crime foi premeditado, planejado e anunciado no chan até cinco dias antes do acontecimento, e nenhuma ação da Delegacia de Crimes Virtuais ou da Polícia Federal foi tomada. No dia 7/3 o crime foi anunciado e o sinal de que eles estavam prestes a acontecer seria uma música. No dia 11 a música Pumped Up Kicks (que fala sobre Columbine) foi postada junto com uma imagem de dois personagens, onde um deles usa a camiseta com os dizeres ‘Natural Selection’, a mesma camiseta que um dos atiradores usava no momento do massacre. O atentado ocorreu no dia 13, e o último print é a conversa que os usuários estavam tendo logo depois. Sei que você se importa em denunciar os crimes cometidos pelos chans e eu acho que eles não podem ficar de fora da discussão sobre essa tragédia.”

Comemoração: “Temos nossos primeiros atiradores sanctos formados no Dogola”

A “música”

Várias pessoas me enviaram outros prints do chan.

A explicação do administrador do Dogola

Novos interessados em cometer massacres

Planos e lembranças de Realengo

Quais devem ser os próximos atentados?

Algumas ameaças vem sendo deixadas nos comentários aqui no blog.

Também me enviaram um print de um email com ameaças a Marie, jornalista da Vice que vem sendo ameaçada pela quadrilha faz tempo. Não sei se o email foi enviado antes ou depois da matéria que ela publicou ontem.

Agradeço às pessoas preocupadas com a minha segurança, a minha vida. Mas não há muito o que fazer. Eu não vou sair do país.

Sinto muitíssimo pelas vítimas desta nova tragédia, e me solidarizo com os familiares.

Eu não sei o que mais fazer para que a Polícia Federal tome alguma atitude e prenda os demais membros do Dogolachan. E que no mínimo monitore os demais fóruns, porque cada massacre serve como inspiração para novos atentados.

Todas e todos nós que somos pela paz avisamos que liberar as armas era uma péssima ideia. Vamos trocar a cultura da morte, o fetiche por armas, por educação contra o ódio?

Publicação de: Viomundo