O antipetismo explica boa parte dos 49 milhões de votos recebidos por Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições presidenciais e serviu para que o ex-capitão do Exército pudesse esconder suas deficiências, como a ausência de propostas claras para o país. A onda antipetista será um dos maiores desafios de Fernando Haddad (PT) no segundo turno, de acordo com especialistas ouvidos pelo GLOBO. A rejeição ao partido se manifestou no crescimento de Bolsonaro na reta final da primeira etapa da disputa, e influencia nas declarações de apoio no segundo turno — o PT deve ficar sem palanque nos três maiores colégio eleitorais: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

— Não tenho nenhuma dúvida de que o principal catalisador do voto no Bolsonaro é o antipetismo. O que mais justifica essa afirmação é a ausência de propostas claras de Bolsonaro em diversas áreas que não seja a contraposição ao que ele intitula de modo petista de governar — avalia Malco Braga Camargos, da PUC-MG.

O cientista político considera que essa rejeição vai além do PT e acaba contaminando toda a esquerda. Por isso, ele não acredita na hipótese de que Ciro Gomes (PDT) teria mais chances contra Bolsonaro no segundo turno, como o próprio candidato dizia para tentar tirar votos de Haddad.

— O antipetismo contaminaria qualquer candidato de esquerda. Tenho muita dúvida do argumento que o Ciro tentou utilizar. Acho que, na prática, o eleitor colocaria o Ciro com a mesma pecha do PT

Jairo Pimentel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ressalta que muitas pessoas votaram em Bolsonaro apenas por identificá-lo como principal opositor do PT, e não necessariamente por concordarem com suas propostas.

— (O antipetismo) Pesou bastante. Talvez tenha sido o impulso necessário para ele quase ter vencido no primeiro turno. Tem uma parcela considerável de votos que necessariamente não são do Bolsonaro, são de oposição ao PT.

Durante mais de 20 anos, o PSDB ocupou o papel de principal partido antipetista, mas isso se encerrou nas eleições desde ano. Mesmo tentando se vender como o candidato que teria mais condições de vencer Haddad no segundo turno, Geraldo Alckmin terminou em quarto lugar, com 4% dos votos. Para Camargos, a principal explicação é o fato da Operação Lava-Jato ter enfraquecido o discurso anticorrupção do partido.

— A retórica de Aécio Neves de sustentar a corrupção como sendo algo específico do Partido dos Trabalhadores, e depois as ocorrências com o próprio, fizeram com que o PSDB se tornasse igual ao PT. Se colocava como uma antítese a isso tudo e depois ficou muito parecido.

Por outro lado, Ricardo Caldas, da UnB, considera que o PSDB nunca se posicionou como um partido de direita, e que, por isso, era escolhido por muitos eleitores apenas por falta de opção. Agora, essas pessoas ganharam uma alternativa realmente de direita.

— O PSDB não tinha uma rivalidade com o PT do ponto de vista ideológico, a rivalidade era mais eleitoral. Era o que tinha disponível. O eleitor estava em busca de um partido com linhas mais conservadoras, e o Bolsonaro se apresentou como um candidato de direita.

No segundo turno, o desafio de Haddad será se afastar do PT sem desagradar o partido, na opinião do cientista político.

— Uma coisa inteligente, que ele não está querendo fazer, seria fazer uma autocrítica, admitir os erros do passado, se distanciar do mensalão e do petrolão. Mas, se ele fizer isso, implode o partido. Ele tem que acalmar essa ala de esquerda e ir em direção ao centro.

Jairo Pimentel considera que mudanças bruscas não são recomendadas nessa etapa da campanha, já que há pouco tempo para reverter uma imagem já consolidada. Em relação à estratégia do PT de substituir o tradicional vermelho nos materiais de campanha pelo verde e amarelo da bandeira brasileira, ele acredita que não deve trazer resultado eleitorais, e pode até atrapalhar.

— É forçado. Pode gerar mais confusão do que agregar. Os eleitores podem pensar: “Quer dizer que o Bolsonaro pode estava certo em usar o verde e amarelo e a gente errado em usar o vermelho?” Verde e amarelo por verde e amarelo, podem preferir ficar com o original.

Do O Globo.

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