Violência política

Em entrevista ao Brasil de Fato, Rafael Azzi, que viralizou com texto na internet, reflete sobre esse e outros temas

Cristiane Sampaio |
Filósofo e com atuação em práticas pedagógicas, Rafael Azzi busca referência em eleição de Trump para refletir sobre contexto brasileiro Foto: Arquivo pessoal

Em tempos de intensa polarização política, é na empatia que o filósofo Rafael Azzi busca inspiração para defender a cultura do diálogo e a democracia no Brasil.

Atualmente ligado à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), onde lida com práticas pedagógicas, e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), ele viralizou nas redes nos últimos dias com um texto que reflete sobre o tema.

O artigo, intitulado “Sua tia não é fascista”, lança luz sobre o perfil de eleitores que defendem o voto no candidato de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) e sobre as origens desse tipo de discurso.

A partir disso, Azzi defende o combate à manipulação política por meio da compreensão do lugar social do outro como estratégia para a promoção da boa convivência entre os opostos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ele conversou sobre esse e outros aspectos que circundam o atual cenário político-eleitoral brasileiro. Confira a seguir os principais trechos.

Brasil de Fato — Você buscou uma referência na figura do Steve Bannon pra refletir sobre esse tema da convivência com a extrema direita. Queria que resumisse por que a escolha dele como ícone pra debater esse assunto.

Rafael Azzi — Eu não escolhi o Steve Bannon. Ele apareceu na cena política mundial com o escândalo que foi o da Cambridge Analytica. Tinha essa empresa que pegava dados do Facebook e traçava perfis psicológicos com o objetivo de fazer propaganda política diretamente pras pessoas que seriam influenciáveis.

Eles pegavam pessoas da direita que seriam razoáveis e, através de manipulação, dados, fake news e de uma manipulação emocional mesmo, usando ferramentas das redes sociais de inteligência artificial que podem traçar perfis psicológicos muito melhor do que qualquer psicólogo, eles produziam blogs, sites e conteúdos falsos que direcionavam essas pessoas pra uma radicalidade, uma extrema direita.

O objetivo do Bannon era divulgar essas informações xenofóbicas, flertando com o racismo, com todos esses temas, e isso funcionou de uma maneira incrível porque tem o dedo dessa empresa na eleição do Trump. Ele foi consultor do Trump, depois participou do governo, tem o dedo dele em protestos que tinham supremacistas brancos e também tem o dedo dessa empresa no Brexit, que teve também muitas fake news.

Eu me deparei com essa coisa estranha que estava sendo a campanha das eleições aqui no Brasil, porque você tem um candidato que quase não faz campanha, não participa dos debates, que a gente não sabe quais as propostas, não tem nem uma organização de campanha direito, não tem porta-voz e uma hora o vice dele fala uma coisa, o economista fala outra, uma campanha completamente desorganizada, que consegue uma ascendência meteórica.

Então, quando eu percebi isso, liguei ao fato de que – e isso foi comprovado pelo próprio Eduardo Bolsonaro – o filho [de Jair Bolsonaro] se encontrou com o Steve Bannon em agosto deste ano e ele prometeu ajudar na campanha dele. Eu liguei esses fatos.

Por que a busca pelo radicalismo por parte de atores como Steve Bannon [e de Jair Bolsonaro] seria estratégica do ponto de vista político? Por que isso é visto como algo a ser capitalizado?

Primeiro, eu acho que essas pessoas devem acreditar nisso e querer que essa mensagem de radicalismo seja propagada. Mas também, se você assusta a população, se utiliza o medo, ela vai ficar radicalizada, e aí ela é mais fácil de ser manipulada. É mais fácil aceitar determinadas coisas, porque você tem medo e vai seguir o líder, você vai começar a pôr medo nessa população e vai dizer “olha, a solução é esse herói aqui, que vai salvar a pátria, então, vamos seguir ele de qualquer maneira”.

E tem também, por trás, um projeto econômico, que é neoliberal. Essas reformas neoliberais são muito impopulares. O Temer começou a fazer um pouco delas e teve a popularidade em baixa – reforma trabalhista, privatizações. E você tem tudo isso por trás dessa mentalidade de extrema direita, vem como um cavalo de troia, escondido ali.

Se você falar com os eleitores dele [de Jair Bolsonaro], a maioria não sabe quem é o economista dele, que é muito pior que o Temer nessa coisa de reformas neoliberais, que quer privatizar tudo, acabar com o serviço público, os direitos trabalhistas e o vice do Bolsonaro falou em acabar com o 13º salário. Todas essas coisas vêm a reboque de um projeto de extrema direita que é de manipular as pessoas.

Esse discurso que se apoia na extrema direita toma fôlego na ideia de aniquilação do outro. O que significa, de um ponto de vista mais filosófico, a percepção do outro, sobretudo daquele que pensa de forma diferente, como um inimigo?

Ótima pergunta. Se você sair por aí perguntando o que é a democracia, as pessoas têm uma noção muito vaga. A democracia é uma solução social pra você resolver conflitos através do diálogo, não da violência, porque sempre você vai ter conflitos na sociedade.

As pessoas não pensam igualmente. Elas têm vidas, objetivos e visões diferentes das coisas, prioridades diferentes, então, você sempre vai ter esses conflitos. A democracia é uma maneira de que, dentro de uma estrutura social, a gente possa resolver esses conflitos através do dialogo, do debate de ideias. Então, você tem que respeitar o outro que pensa diferente de você, o outro partido, as regras do jogo político.

Estou vendo as pessoas compararem muito esta eleição com a anterior, que foi a da Dilma contra o Aécio, que também foi muito disputada e tinha em jogo duas visões muito diferentes. Havia medo de o Aécio privatizar tudo, medo do PT com a Dilma, mas a violência não chegou ao ponto em que está chegando hoje. Estamos chegando a um ponto de extremismo, de tensão social, que é criminoso.

Parece que querem rasgar o tecido da sociedade. O que estão fazendo com essas pessoas, de manipular a ponto de você enxergar o outro que tem ideias diferentes e modos de vidas diferentes dos seus como seu inimigo, [de enxergá-lo] como aquele que não pode existir, é uma manipulação muito perigosa. E é ela que acaba corroendo a democracia em nosso tecido social.

Levando em conta esse debate, qual a importância da empatia na hora do diálogo entre pessoas que pensam de maneira diferente, sobretudo quando se trata de pessoas que pensam de forma diametralmente oposta?

Muito boa essa pergunta e eu tenho insistido muito nesse ponto porque acho que é isto: existe esse movimento que quer rasgar o tecido social, quer nos jogar uns contra os outros, quer a violência, o caos, quer pôr em dúvida o jogo democrático. Você vê, por exemplo, a quantidade de notícias de urnas falsas e que são notícias falsas, mas é pra comprometer o jogo democrático.

Estou fazendo um esforço de tentar fazer com que a sociedade não quebre, não rache, que a gente tente costurar esse tecido, porque senão ela vai rachar, e isso é muito perigoso, vai ter muita violência. Meu esforço é no sentido de falar da empatia, de falar de as pessoas não responderem ao ódio com mais ódio, de elas não caírem na paranoia do medo.

Isso é a base de qualquer democracia, de qualquer discussão filosófica, de perceber que as pessoas podem entender o mundo de forma diferente. Elas podem ser “coxinha” ou “mortadela”, mas agora não tem mais essa brincadeira. Parece que as pessoas estão vendo um inimigo na frente delas, criaram esse inimigo, e isso é muito perigoso.

Qual seria, então, o melhor método pra que uma pessoa de linha progressista possa dialogar com um potencial eleitor da extrema direita – no caso atual do Brasil, um eleitor do Bolsonaro?

Eu acho que o único caminho é você perceber que as pessoas foram contaminadas com esse medo, que elas estão recebendo algo muito tóxico [em termos] de mensagens de ódio ao outro lado, estão vivendo uma realidade que não é a mesma da nossa.

Hoje em dia a gente recebe as notícias diretamente do celular, e isso é muito perigoso porque o celular é o ambiente mais privado que existe. É a sua telinha individual, e a outra pessoa do lado não sabe o que está se passando ali. É isso que foi sequestrado. Debate público de ideias não houve nessa eleição. Quais são as propostas desse candidato? Ele não foi aos debates, então, ninguém sabe quais são as propostas. O debate foi transportado pra esfera privada, que é a esfera desses grupos de WhatsApp, que vão jogando fake news.

Mas acho que a primeira coisa [a fazer] é o entendimento: é tentar entender e se colocar no lugar dessas pessoas. Se você recebesse essas mensagens que elas recebem, provavelmente também estaria com medo, também estaria achando que o outro lado é violento, é do caos, que quer destruir os valores em que você acredita, todas essas mentiras que estão sendo programadas aí na mente dessas pessoas. Eu estou achando que é pelo caminho da empatia.  

Por fim, olhando para esse cenário atual do Brasil e para experiência recente dos EUA com o Steve Bannon e o projeto político do Trump, com a consequentemente chegada dele ao poder, que lição essa experiência deles deixa pra nós, brasileiros, sobretudo neste momento de segundo turno?

A lição é a gente que vai ter que aprender na marra. A gente estava completamente despreparado. Eu acho que a mídia tradicional estava despreparada, os partidos políticos tradicionais e a sociedade também, mas eu não sei… Tenho pra mim que, no fim, a racionalidade pode ganhar, porque não é possível que você consiga manipular tantas pessoas de uma forma tão forte durante tanto tempo. Acho que as pessoas vão começar a surtar ou vai começar a haver casos de violência cada vez mais graves, não sei. Esse é o nosso teste pro mundo. Nós temos 200 milhões de pessoas, somos a quarta democracia do mundo, um país importante na América Latina e oitava economia do mundo. Se a nossa democracia resistir a esse ataque, a gente é que vai dar uma lição pro mundo.

Publicação de: Brasil de Fato – Blog