Observatório da Imprensa

por Alexandra Mello*, especial para o Viomundo

Estamos a pouquíssimos meses de uma das eleições mais importantes desse país, e o que mais se vê nas redes sociais são, ainda, acusações de um lado e de outro.

Gente olhando pra trás e apontando o dedo pra quem pensa ou faz ou é diferente.

E o mais curioso: cada um fazendo isso do seu quadrado (ou melhor, da sua bolha). Com a ilusão de que está fazendo debate. Que espécie de debate é esse?

Se você quer mesmo mudar o mundo, se espera que as pessoas revejam suas posições, se acha o seu olhar mais correto, adequado, incrível, inteligente ou sei lá o quê, se gasta TANTA saliva, ou, melhor, TANTO dedo pra isso (dedos têm sido bem mais corajosos que boca), será que é deletando, bloqueando, ignorando, excluindo, xingando, que vai conseguir o que pretende?

Óbvio e ululante que não!

Na sua bolha, não há muito que fazer. Nela, você gasta o maior tempo compartilhando com aqueles que já pensam como você.

Se quer mesmo mudar o mundo, mude você.

Mude sendo paciente, tolerante e persistente para dialogar com quem está, na sua visão, equivocado.

Mude conversando com quem pensa diferente. Seja porque cresceu e conviveu com o diferente (de você). Seja porque não foi estimulado a pensar e, portanto, repete o que escuta sem qualquer reflexão. Seja porque é convicto e tem todos os argumentos para justificar suas crenças. Seja porque é um baita de um babaca. Esse, pode ter certeza, acha exatamente o mesmo de você.

Mude conversando com crianças. Não para fazê-las pensar como você. Mas fazendo perguntas. Escutando-as. Contribuindo para que se tornem seres pensantes. Críticos. Autônomos. Para não crescerem como aqueles que só repetem o que escutam sem qualquer reflexão (mesmo que seja o que escutam de você).

Mude vivendo democraticamente. A arrogância é a pior coisa que existe. A arrogância afasta. A arrogância te faz um ser egocentrado. A arrogância inviabiliza.

É claro que é difícil. Às vezes, insuportável. Mas quem disse que lutar é fácil? E quem disse que falar só com e para os iguais é luta?

O que adianta falar tanto de sair do quadrado, de dentro de um? É senso comum achar que um ambiente apropriado (lembrando que apropriado pra um pode não ser pra outro) vai favorecer uma boa formação para as crianças que crescem nele.

E o contrário? A lógica não deveria ser a mesma? O que adianta chamar, por exemplo, um homofóbico de babaca? Ele pode ter crescido num ambiente desrespeitoso, preconceituoso, repressor, reacionário. Justifica? Não. Torna justo? De jeito nenhum. Mas talvez explique.

Portanto, você não estará fazendo nada por uma sociedade sem homofobia, chamando-o de babaca. Você não muda nada assim. Nada! Absolutamente nada! Ao contrário. Isso só o faz ainda mais homofóbico. Ache-o babaca, mas tente encontrar uma maneira mais eficaz para mudar isso.

Até quando vamos ficar acusando quem é isso ou aquilo, quem deu o golpe quem não deu, se foi golpe ou se não foi, quem bateu panela quem não bateu, quem colocou o vice quem não colocou?

Isso tudo, do jeito que é feito nas redes sociais está mais do que desgastado. Vamos olhar pra frente. Vamos nos preocupar com a responsabilidade dos nossos votos. Vamos nos apropriar do nosso país. Vamos nos preocupar mais com votos para o legislativo.

Não aprendemos dessa vez o quanto deputados e senadores determinam o rumo desse país? E ainda assim, vamos continuar nos preocupando apenas com os candidatos a presidente e só lá no finalzinho é que vamos definir os outros?

Vamos nos preocupar com as alianças que estão sendo feitas nos estados. Vamos nos preocupar menos em, vaidosamente, ficar exibindo nossas posições e mais em compartilhar informações e análises importantes.

Que espécie de democracia queremos com essa atitude autoritária e arrogante de eliminar pessoas porque pensam ou são diferentes? Sabe qual é o problema?

A maior parte das pessoas (dos mais endinheirados, é claro) está mais preocupada com uma educação “puxada” para seus filhos (afinal, eles precisam ser os melhores) do que com uma mais humanista que sensibilize os alunos para questões sociais relevantes.

Para uma educação que tenha como principal meta formar seres autônomos, intelectual e emocionalmente.

A professora da educação infantil, pra quem ninguém está dando a menor bola, pode fazer muito mais pelo país do que as pessoas que perdem tanto tempo repetindo as mesmas coisas para os mesmos seguidores.

Olhar pra trás é importante pra entender o que se passa. Mas ficar lá remoendo não tá com nada (serve pra mim também).

Vamos abrir mais espaço para a educação nas redes sociais. Mas não para seus dados estatísticos. E sim para o que está se passando no ambiente escolar, diariamente.

Em muitas escolas, a matemática continua sendo ensinada como se fosse conhecimento social e não construído. Em muitas, a criança quase não tem voz. Em muitas, crianças especiais precisam sair porque os pais de outras entendem que sejam ameaça para seus filhos (fácil ser homofóbico assim lá adiante, né?).

Em muitas, o texto da prova de história é cheio de metáforas quando a criança ainda não tem idade para entendê-las. Diagnóstico? Não interpreta textos. Em muitas, a história que está passando diante dos olhos dos alunos ficará pra ser dada um dia, quando uma versão estiver registrada em apostilas.

Por que é tão difícil entender que isso tudo deveria ser assunto de todos nós e não só da pedagogia?

Que tudo isso tem tudo a ver com os cidadãos que teremos lá na frente? Que serão ou não preconceituosos, terão ou não consciência da importância do voto, baterão ou não panela, saberão ou não viver em democracia.

A palavra ditado da sala de aula (em muitas, uma prática extenuante ainda) tem a mesma origem da palavra ditadura e do verbo ditar.

Portanto, que tal pensarmos melhor (servindo pra mim!) antes de ditar o que o outro deve dizer, não fazer, escrever, ser, vestir, não dizer, fazer, pensar?

Que tal mais confronto de ideias? De pessoas, não está nos levando a lugar algum.

*Alexandra Mello é psicóloga/psicopedagoga. 

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Publicação de: Viomundo