Monthabril 2018

Governo “socialista” de Pernambuco persegue único sindicato de policiais de esquerda do Brasil

Foto Facebook de Áureo Cisneiros

Governador Paulo Câmara tenta dissolver o único sindicato de policiais civis do Brasil assumidamente de esquerda

por Wladimir Quirino*

A estrutura de estado, o poder público, é essencialmente conservador no Brasil.

Qualquer governo, independente de partido, terá de lidar com essa realidade.

A estrutura policial age como braço armado ou força garantidora de privilégios que o arcabouço legal impõe como regra de conduta e limitador social.

Quebrar essa lógica secular não é fácil.

Por mais que a academia se coloque, que especialistas falem sobre os problemas da atuação das policias, o resultado parece não penetrar na sociedade e sequer atingir policiais militares e civis.

Em 2015, em Pernambuco, policiais civis, mesmo de fora da direção, tomam à frente de uma greve deflagrada e conseguem o maior aumento da história da Polícia Civil de Pernambuco.

Um policial no final de carreira saltou de R$ 5.500,00 para R$ 9.070,00.

Obviamente, esses policiais ganharam a eleição do SINPOL-PE e se tornaram direção.

A primeira mudança foi a democratização do sindicato.

Hoje o presidente só pode disputar uma reeleição.

Além disso, conquistaram a carta sindical, estabeleceram pontes com movimentos sociais e outras categorias.

É impossível uma grande manifestação progressista no Recife não contar com a participação do SINPOL.

Além de todo ativismo e apoio político às diversas forças progressistas, hoje Pernambuco conta com mais de 300 policiais filiados ao Movimento Policiais Antifascismo.

No sindicato são comuns debates, seminários envolvendo temáticas identitárias ou dos Direitos Humanos.

Em janeiro, o SINPOL levou para participar o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

E qual o papel prioritário de um sindicato? Lutar por sua categoria.

Eis o ponto que o atual governo de Pernambuco, em especial o governador Paulo Câmara (PSB), não consegue compreender.

Em 2017, houve um grande aumento de violência no Brasil.

Em Pernambuco, o aumento foi mais acentuado e o estado ocupou o terceiro lugar em número de homicídios.

Somente em 2017, foram 5.426 homicídios, o maior número da História.

E, não diferente de outros estados, os mortos, em sua maioria, tem classe social e cor.

No entanto, a polícia judiciária deve investigar e o sindicato deve exigir condições mínimas de trabalho.

Mas a desestruturação da Polícia Civil é tamanha que, de cada 10 assassinatos em Pernambuco, apenas 4 são solucionados pela polícia.

A falta de efetivo, a não padronização das delegacias e demais unidades policiais são problemas levantados diariamente pelo sindicato.

Diferente de Eduardo Campos, Paulo Câmara é avesso à negociação e, consequentemente, ao debate político, tão necessário na atualidade.

Hoje a direção do único sindicato de policiais civis de esquerda do Brasil está prestes a ser dissolvida por causa de Processos Administrativos que se fundamentam na atuação sindical.

Simplesmente, o governo de Pernambuco não os reconhece como sindicalistas e abusa politicamente da estrutura legal antiquada.

Em resumo, denúncias por melhores condições de trabalho resultam em processos administrativos.

Delegacias insalubres? Processo administrativo. Denúncia de um IML em péssimas condições? Processo administrativo.

São processos administrativos internos, movidos pela Corregedoria, que assustam os que tomam conhecimento.

Na verdade, Paulo Câmara tenta fazer o mesmo que Marco Maciel, em 1980, fez ao demitir Paulo Rubem Santiago, na época defendendo os professores estaduais e demitido por isso.

A diferença é que hoje existe uma Constituição Federal que garante, em seu artigo 8º , a livre atividade sindical.

Não dialogar e processar, ao invés de negociar, apenas diminui o governador e o distancia do legado do Partido Socialista Brasileiro.

Até onde se sabe o governador Paulo Câmara não tem irmão gêmeo.

O mesmo Paulo Câmara que se mostra solidário ao presidente Lula deveria governar Pernambuco.

Ou existem dois Paulo Câmara?

Nota do SINPOL

Segue o histórico de PADs (Processos Administrativos) contra o presidente do SINPOL, Áureo Cisneiros:

Áureo Cisneiros Luna Filho é presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (SINPOL/PE), pelo segundo mandato consecutivo, foi eleito democraticamente pela categoria, tendo alcançado, no último pleito realizado em setembro de 2017, cerca de 90% dos votos.

Antes mesmo de ingressar no referido Sindicato Áureo Cisneiros já atuava com o intuito de melhorar as condições de trabalho dos policiais civis, em busca de melhores serviços para a população pernambucana.

Em 10/08/2012, quando lotado na Delegacia de Polícia de Macaparana/PE, Áureo entrou em contato com as unidades policiais de Carpina, Timbaúba, Condado, Camutanga, Tracunhaém, Buenos Aires e Paudalho, constatando, para a sua surpresa, que não havia nenhuma autoridade policial nas referidas delegacias, registrando as ausências em boletim de ocorrência.

Mesmo diante da gravidade do fato – a constatação da ausência de sete delegados de suas respectivas unidades policiais –, foi instaurada sindicância em seu desfavor, tendo sido acusado à época de ter adotado “conduta descomedida”, “desagregadora”, já colocando juízo de valor no fato que deveria ter sido apurado pelas autoridades policiais competentes.

Desta sindicância administrativa resultou a instauração, em 2013, de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), cuja conclusão em setembro de 2015 foi a de aplicar a Áureo a penalidade de 30 dias de suspensão, deixando-o sem salário durante um mês, ressaltando-se que não foi instaurado pela Administração Pública Estadual nenhum procedimento para a apuração do grave fato da ausência de sete delegados de suas respectivas unidades policiais.

Desde o seu ingresso no referido Sindicato, Áureo vem lutando incansavelmente em defesa de toda a categoria dos policiais civis do Estado de Pernambuco, realizando constantemente visitas aos órgãos que compõem a Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) e realizando manifestações em defesa dos direitos da categoria.

Em outra ocasião, em maio de 2015, Áureo Cisneiros recebeu várias denúncias de policiais civis que estavam escalados para atuar em determinada operação, correndo risco de morte.

Segundo as denúncias, a chefia de polícia estava desrespeitando algumas normas instituídas, como a obrigatoriedade de fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI’s) adequados, o pagamento antecipado de diárias, além das condições precárias de viagem, uma vez que os policiais civis convocados deveriam sair de Recife e se dirigir para o interior do Estado, para que cumprissem logo pela manhã mandados de busca, apreensão e de prisão, não sendo observado pela chefia o descanso da maioria dos policias convocados.

Nesta ocasião, Áureo Cisneiros negociou com a chefia melhores condições de trabalho e de segurança para todos.

A operação transcorreu normalmente, tanto que a Secretaria de Defesa Social divulgou na mídia eletrônica e televisiva notícias sobre o sucesso da operação.

Mesmo assim, foi instaurado PAD em desfavor de Áureo Cisneiros, cuja conclusão ocorrida em dezembro de 2016 o penalizou novamente com 30 dias de suspensão.

Em 3 e 4 de março de 2015, investido na qualidade de dirigente sindical e presidente do SINPOL/PE, Áureo Cisneiros esteve nas dependências do Instituto Médico Legal (IML) de Recife para verificar as condições de trabalho do local.

Foi acusado de ter permitido o acesso de cinegrafistas e repórteres às instalações do IML e de ter tratado os funcionários do local com falta de urbanidade.

Estas visitas realizadas ao IML por Áureo Cisneiros foram objeto de instauração de mais um PAD, em 11 de março de 2016, cuja conclusão em abril de 2017 aplicou a penalidade de 10 dias de suspensão ao presidente do SINPOL/PE.

Em maio de 2015, o SINPOL/PE realizou visita ao IML de Caruaru, também com o intuito de averiguação das condições de trabalho do instituto, sendo que Áureo Cisneiros não esteve no local.

Mesmo assim, foi instaurado em 11 de março de 2016, em seu desfavor, PAD acusando-o de ter invadido o IML de Caruaru, cuja conclusão em junho de 2017 aplicou a penalidade de 30 dias de suspensão.

Não podendo ser diferente, ou seja, investido na qualidade de dirigente sindical e presidente do SINPOL/PE, em 06/07/2015, por volta de 11 horas, Áureo Cisneiros realizou nova visita ao IML de Recife, desta vez para, além de averiguar as condições de trabalho, verificar denúncia recebida pelo Sindicato de que estaria ocorrendo usurpação de função pública: funcionários terceirizados estariam realizando atividades de auxiliar de perito.

Com base neste fato, além da acusação de que Áureo e o SINPOL/PE teriam divulgado imagens internas do IML à mídia, foi instaurado em 11 de março de 2016 Processo Administrativo Disciplinar em seu desfavor, que, concluído em abril de 2017, aplicou-lhe a penalidade de 10 dias de suspensão.

Em 21/08/2015, na qualidade de representante do SINPOL/PE, Áureo Cisneiros realizou ato em defesa da categoria dos policiais civis de Pernambuco em frente à sede da FIEPE (Federação das Indústrias de Pernambuco).

Nesta mesma data, encontravam-se na FIEPE o então governador do Estado e a presidente da República à época.

Em decorrência do ato, o excelentíssimo governador do Estado ajuizou ação criminal, alegando que Áureo Cisneiros teria proferido frases depreciativas à sua honra.

Com base na referida ação criminal, foi instaurado em 11 de março de 2016 PAD em desfavor de Áureo, cuja conclusão, ocorrida em junho de 2017, aplicou-lhe a penalidade de 30 dias de suspensão.

Observa-se claramente que, na gestão do corregedor geral da SDS, Servilho Silva de Paiva, Áureo Cisneiros foi duramente perseguido pela autoridade máxima daquela Casa Correcional.

Violando uma série de princípios administrativos, instaurou somente em 11 de março de 2016 os quatro últimos processos administrativos acima relatados, além de outros dois Processos Administrativos Disciplinares, destacando-se que todos estes PAD’s foram instaurados na 5ª Comissão Permanente de Disciplina, integrante da Corregedoria Geral da SDS.

É inequívoco que a instauração praticamente simultânea de seis PADs numa mesma Comissão Processante caracteriza flagrante violação aos princípios do juiz natural e da impessoalidade cometidas pelo Corregedor Geral da SDS à época.

Em desfavor de Áureo Cisneiros Luna Filho foi instaurado em 02/10/2017 Processo Administrativo Disciplinar para apuração da contumácia de prática reiterada de infrações disciplinares, baseado nos PAD’s acima mencionados, que são expostos em resumo:

27/09/2013

Quando lotado na Delegacia de Macaparana, em 10/08/2012, Áureo realizou ligações telefônicas e constatou ausência de sete autoridades policiais de suas respectivas delegacias.

20/05/2015

Áureo Cisneiros negociou junto à chefia de polícia cumprimento de condições previstas em lei para policiais civis que participariam de operação de alto risco no interior do Estado.

11/03/2016

Áureo Cisneiros esteve nos dias 3 e 4 de março de 2015 nas dependências do Instituto Médico Legal (IML) de Recife para verificar as condições de trabalho do local, tendo sido acusado de ter permitido o acesso de equipes de reportagem às instalações do IML e de ter tratado os funcionários com falta de urbanidade. A 5ª CPDPC da Corregedoria Geral da SDS realizou as apurações do processo administrativo.

11/03/2016

Em visita no mês de maio de 2015 ao IML de Caruaru, foram constatadas pela diretoria do SINPOL irregularidades estruturais. Ocorre que Áureo sequer esteve no local e data indicados. A 5ª CPDPC da Corregedoria Geral da SDS realizou as apurações do PAD.

11/03/2016

Em julho de 2015, Áureo realizou nova visita ao IML de Recife, com o intuito de verificar denúncia recebida pelo sindicato de usurpação de função pública naquele instituto. Funcionários terceirizados estariam realizando atividades de auxiliares de peritos. As apurações do fato foram incumbidas à 5ª CPDPC.

11/03/2016

Em agosto de 2015, na condição de dirigente sindical, Áureo realizou ato em frente à FIEPE, tendo sido acusado de ter proferido calúnias ao governador do Estado e à presidente da República.

A 5ªCPDPC da Corregedoria Geral da SDS também foi designada para realizar as apurações do fato.

A contumácia em prática de infrações disciplinares, sejam elas quais forem, conforme legislação ultrapassada de 1972, resulta na demissão do policial civil.

Ora, conforme exposto, além de estar devidamente licenciado para o exercício do mandato de presidente do SINPOL/PE, Áureo Cisneiros não praticou nenhuma transgressão disciplinar, uma vez que sua atuação sempre foi pautada pela atividade sindical e respeito à categoria, uma vez que é público e notório seu engajamento na busca de melhores condições de trabalho para os policiais civis de Pernambuco.

Desde então foram instaurados mais seis PAD’s em seu desfavor, ressaltando-se que todos os fatos objeto de apuração se referem a atividade sindical:

11/03/2016

Em 02/02/2015, Áureo esteve na Delegacia de Agrestina para verificar casos de usurpação da função policial. Foi constatado que quatro Assistentes de Gestão Pública estavam atuando como Policiais Civis. Apurações realizadas pela 5ª CPDPC.

11/03/2016

Em 07/07/2015, Áureo Cisneiros esteve no IML de Recife, com o intuito de verificar denúncia de usurpação de função pública por empregados de empresa terceirizada. Apurações do PAD também realizadas pela 5ª CPDPC.

05/04/2017

Nas eleições do SINPMOL (Sindicato dos Professores Municipais de Olinda) realizadas em 12/05/2016, Áureo esteve presente e participou das atividades do pleito. Atuação unicamente sindical, uma vez que estava em pleno gozo de seu mandato como presidente do SINPOL. Vários sindicatos de outras categorias também estavam representados na ocasião.

07/02/2017

Sindicância Administrativa — Em atendimento a solicitações de policiais civis da Delegacia Especializada da Mulher em 01/05/2015, Áureo esteve presente na unidade policial para esclarecimento e orientação sobre a obrigatoriedade e preenchimento de boletins de ocorrência sem a presença da autoridade policial responsável.

PAD instaurado para apurar convocação dos policiais civis realizada em 26/04/2017 por Áureo Cisneiros e outros diretores do SINPOL/PE para a Greve Geral ocorrida em 28/04/2017.

21/02/2018

PAD instaurado para apurações de manifestação na rede social Facebook em relação ao Conselho de Segurança criado pela Administração Pública Estadual, afirmando que o Conselho não dialoga com os diversos setores da sociedade.

*Wladimir Quirino é historiador e consultor político

Leia também:

Pochmann: Ponte de Temer leva o Brasil ao abismo

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Publicação de: Viomundo

México: encruzilhada entre militarização e eleições presidenciais


América Latina

Faltando dois meses para a escolha do novo presidente, país volta a debater modelo de segurança pública

Fania Rodrigues |
Militarização acumula saldo de mortes e desaparecidos nos 32 estados mexicanos La Jornada

Há dois meses das eleições presidenciais, previstas para o dia 1° de julho, o México volta a debater o seu modelo de segurança pública, que é baseado na militarização. Depois de 12 anos com o Exército nas ruas, o saldo de violência se compara às ditaduras militares da América do Sul, entre os anos de 1960 e 1980. Segundo dados do governo mexicano, foram assassinadas cerca de 280 mil pessoas em pouco mais de uma década, além de 32 mil desaparecidos.

O atual presidente do país, Enrique Peña Nieto, que ganhou as eleições em 2012 pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), é um defensor da militarização. O seu partido, junto ao antecessor na presidência, o Partido da Ação Nacional (PAN), de Felipe Calderón (2006-2012), fizeram altos investimentos na área. Os dois partidos direitistas apoiam ou têm candidato para estas eleições: Ricardo Anaya, do PAN, e José Antonio Meade, que se apresenta como sem partido, mas tem o apoio do PRI.

O orçamento do Estado mexicano em segurança pública praticamente dobrou em uma década. Passou de 5 bilhões de dólares, em 2006, para 9,8 bilhões de dólares em 2017, segundo o relatório Orçamento Público Federal para a Função da Segurança Pública, produzido pela Câmara de Deputados do país.

Porém, o número pode ser ainda mais alto, pois, de acordo com o Instituo para Economia e Paz, que se dedica a documentar o orçamento público mexicano, o montante aplicado em segurança pública foi de 29 bilhões de dólares, em 2017.

No entanto, tais investimentos não foram capazes de frear a violência. Para o pesquisador e professor da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM) Guillermo Garduño, isso demonstra o fracasso da política de militarização e de guerra às drogas. “Com a militarização do país, os grandes cartéis de drogas também se armaram. Hoje, possuem armas tão ponderosas que seriam capazes de derrubar helicópteros. Além disso, os cartéis mantém uma ligação estreita com alguns setores militares”, afirma o pesquisador, que por anos estuda as causas e consequências da violência no México.

A complexidade da violência no país é tal que alguns cartéis têm características de corte militar, segundo Garduño. “O nível de corrupção é muito alto dentro das forças militares. Inclusive, Los Zetas, um cartel que nasceu nos anos 1980, é fruto de uma aliança entre os militares e os narcotraficantes. Esse é o caso também do cartel de Jalisco Nova Geração, que hoje tem um arsenal de armas poderoso”, explica.

Apesar de o país ter cartéis há mais de 30 anos, foi na última década que eles deram um salto em tamanho e armamento e se transformaram em algumas das organizações criminosas mais poderosas do mundo. A militarização não pôde conter nem mesmo o tráfico de armas. Os grandes cartéis, como o de Sinaloa (um dos mais violentos), de Jalisco Nova Geração, da Família Michoacana e até mesmo Los Zetas (que se encontra bastante debilitado atualmente), usam em sua maioria armamentos de origem estadunidense, de acordo o jornalista investigativo Zósimo Camacho, da revista mexicana Contralínea.

A militarização tampouco combateu o narcotráfico. Prova disso é que o país converteu-se em um dos maiores produtores mundiais da papoula, matéria-prima usada na fabricação de heroína. “A papoula produzida no México é responsável por 40% da heroína que consome os Estados Unidos. Além disso, continua sendo rota obrigatória para a cocaína que vem da América do Sul, sobretudo da Colômbia. O destino principal continua sendo os Estados Unidos, mas já uma boa parte é enviada para a Europa”, destaca o jornalista. “O México tornou-se  a horta de papoula dos Estados Unidos”, diz Zósimo Camacho, em texto recente, no qual revela que existem 74 mil hectares de plantação de papoula em território mexicano.

Relação com o Brasil

Ainda que essa política tenha fracassado no México, outros países como a Colômbia e, mais recentemente, o Brasil insistem nesse modelo da militarização. O professor Guillermo Garduño afirma que o governo brasileiro caminha a passos largos para a “mexicanização” da segurança pública. “Assim como aconteceu no México, também no Brasil está havendo uma criminalização da pobreza. Pois o narcotráfico surge nas entranhas mais profundas do poder politico e econômico, mas estão combatendo apenas os pobres que vendem a droga por necessidade econômica”, diz.

O delegado da polícia civil do Rio de Janeiro Orlando Zaccone aponta para essa mesma problemática. “Minha pesquisa de doutorado foi voltada para o encarceramento motivado pelo tráfico de drogas. Observei que a maioria dos traficantes são pessoas extremamente pobres, que não têm arma, porque aqueles que têm armas não são presos, são mortos, e que a quantidade de droga que um traficante é preso é ínfima”, explica o delegado.

Formado em Direito, com mestrado em Ciências Penais e doutorado em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Zaccone ressalta que quem lucra com o tráfico não são os vendedores varejistas de drogas. “O mercado das drogas ilícitas representa a quarta maior economia do mundo. Essa economia não está nas favelas, mas sim no sistema financeiro”. No México, o crime organizado injeta mais de 100 bilhões de dólares no sistema financeiro, em lavagem de dinheiro, todos os anos, segundo Guillermo Garduño.

Como no México, a ideia de guerra às drogas no Rio de Janeiro levou o Exército às ruas. Em fevereiro, o governo de Michel Temer decidiu militarizar a segurança pública do estado. Passados dois meses, o Ministério da Segurança Pública ainda não demonstrou a efetividade da ocupação militar. Nesse período, a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes foram executados a tiros no centro do Rio. O crime que chocou o país ainda não foi resolvido nem os suspeitos encontrados, mas uma da linhas de investigação aponta o envolvimento de policiais militares.

Já no México, no estado de Guerrero, em 2014, o desaparecimento de 43 estudantes da escola rural do magistério de Ayotzinapa também causou indignação na sociedade. Os principais suspeitos são políticos e militares da região. Mais recentemente, surgiu outro caso de desaparecimento forçado que provocou comoção. Três estudantes de cinema da Universidade de Meios Audiovisuais de Guadalajara foram mortos e tiveram seus corpos dissolvidos em ácido sulfúrico, segundo a promotoria do estado de Jalisco, no México. Desta vez, as investigações apontam para membros do cartel Jalisco Nova Geração.

Contexto da militarização mexicana 

Quando Felipe Calderón assumiu a presidência do México, em 2006, pesava sobre ele a desconfiança de ter vencido em um processo eleitoral suspeito de fraude. Diversas organizações políticas, movimentos sociais e a sociedade civil denunciaram irregularidades durante a votação e a apuração dos votos. Nas ruas da capital mexicana, o cenário era de protestos massivos contra o resultado eleitoral.

Naquele momento começava uma guerra entre os cartéis do narcotráfico. Foi nesse contexto que o presidente recém-eleito decidiu: a solução era militarizar o país. “Nessa época, as pessoas ainda que indignadas deixaram de protestar, pois as marchas ficaram entre o fogo cruzado do Exército e dos grupos narcotraficantes”, relembra o jornalista Zósimo Camacho.

Após 12 anos de guerra, o debate da militarização volta a aparecer com força no cenário político, em plena campanha eleitoral. No entanto, nenhum dos quatro principais candidatos possuem uma agenda clara sobre o tema, destaca Camacho. “A maioria dos candidatos usam o medo como ferramenta de campanha, pois querem seguir lucrando com o medo. Já o candidato da esquerda Andrés Manuel López Obrador, do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) e líder nas pesquisas de intenção de voto, afirma que vai resolver a situação de ‘outra maneira’, mas não diz como”.

As próprias Forças Armadas fazem parte do cenário politico e disputam o poder, segundo Camacho. “As Forças Armadas converteram-se em um ator político importante. Pois, depois de tantos anos tendo o controle do território, as autoridades fazem pressão junto aos políticos para poder aplicar cada vez mais a força, com menos regras. Conseguiram aprovar no Congresso uma nova lei de segurança, em dezembro de 2017, e, agora, podem invadir casas e prender pessoas sem mandado judicial”, relata o jornalista.

Nas eleições presidenciais de 2018, além dos partidos políticos, outros atores têm peso decisivo, entre eles estão os cartéis de drogas, os meios de comunicação, os bancos internacionais e diferentes organizações dos Estados Unidos. “Não há dúvidas de que o narcotráfico também intervém nas campanhas eleitorais, financiando e promovendo candidatos, assim como gerando violência. O curioso é que a maioria dos candidatos não se posicionou sobre esse assunto”, afirmou o jornalista do La Jornada Luís Hernández Navarro, em entrevista ao Brasil de Fato neste mês de abril.

Ao povo mexicano, que é quem oficialmente terá a última palavra na escolha do novo presidente, caberá a difícil tarefa de driblar todas essas interferências que desvirtuam o processo e definir o novo líder que possa trazer um ambiente menos violento ao país latino-americano.

Publicação de: Brasil de Fato – Blog

Comunidade em João Pessoa (PB) luta por direito à moradia


Resistência

Famílias resistem à expulsão de área onde vivem há mais de trinta anos

Homero Baco |
Atrás do muro a resistência, Ana Paula, umas das lideranças da comunidade Yebá Ngoamãn

Quando se chega ao conjunto Portal do Sol, no bairro do Altiplano, em João Pessoa, a primeira impressão é de uma imagem bem comum: de um lado, riqueza; de outro, pobreza. O que divide essas realidades, além de bens e direitos, é um muro. Um muro entre um Haras e um terreno que guarda o silêncio de histórias como a de Edenise. Mas, entre o muro e o haras, há resistência. 

O caso dos moradores do Portal do Sol trata-se da mais pura realidade de resistência à especulação imobiliária. Com discursos de progresso, prefeitura e empresários se unem para expropriar moradores, seja com aliciamento, oferecendo quantias irrisórias, seja pela opressão, utilizando a guarda municipal. Hoje, trezentas famílias compartilham sonhos, desejos e vontade de lutar. Pessoas que antes viviam do plantio e da pesca, hoje tiram seu sustento do trabalho informal.

Aprígio Salviano, de 69 anos, é um dos mais velhos moradores do local. Quando lá chegou, há mais de trinta anos, não existia nem haras nem muro. No início, vivia do plantio ali mesmo. Ele foi o responsável pela primeira instalação elétrica: “uma gambiarra que puxei”, relembra. Aos poucos, outras famílias foram ocupando o local. Com o aumento do número de moradores, vieram também as primeiras negociações pelo terreno. Pequenos loteamentos eram vendidos para novos moradores, que abriam suas lonas ou construíam suas casas de taipa. Assim, a comunidade foi crescendo. Sem a presença do Estado para oferecer serviços básicos como água, luz, saúde, educação e transporte, eles se viravam com o que tinham. Quando o poder público finalmente chegou, não foi para melhorar a vida daquelas pessoas, mas para trazer desassossego. Chegaram com truculência acompanhada de gente dizendo-se dona do terreno. Entre esses, um nome é ouvido por todos os moradores: João Sobrinho.   

“Eles diziam que estávamos ocupando o terreno deles. Tinha uns que eram indenizados, outros não. Vinham com a polícia para intimidar. Eu dizia que podia passar com o trator por cima da casa, mas ia ter que passar por cima de mim e meus três filhos”. A fala de Edenise Francisca, 36 anos, diarista, é recorrente do tratamento violento que os moradores vêm recebendo desde então.

Uma das líderes do movimento de resistência, Ana Paula, de 32 anos, trabalha vendendo coco e água na praia. Com o pouco que ganha, mais o benefício do Bolsa Família, cuida dos seis filhos e do marido que é pescador, mas está parado por conta de uma tuberculose. Ela ressalta a importância da união de todos para que a luta pela manutenção da comunidade seja vitoriosa: “Na minha opinião, todos têm que ser unidos. Não adianta juntar trinta pessoas se aqui tem mais de trezentas famílias; tem que ser todo mundo junto, aí a chance de vencer é maior”.

Além disso, desabafa em relação ao papel da prefeitura nesse momento: “Ao invés de eles estarem preocupados em tirar a gente daqui, deveriam se preocupar em calçar a rua; aqui está precisando de uma escola, de uma creche, de um posto de saúde, de uma praça, nada disso a gente tem. Em vez de marcar nossas casas para tirar a gente, era para estar se preocupando com a barreira que está caindo e por isso os ônibus não estão passando. Por que a defesa civil que veio marcar nossa casa não vai se preocupar com a barreira?”.

Publicação de: Brasil de Fato – Blog

Wadih Damous: Ao permitir que Moro determinasse a prisão de Lula, o STF fez a opção pela barbárie social

Lula Marques/Agência PT

Opção pela barbárie

por Wadih Damous, em O Globo

A irresponsável e ardilosa autorização dada pelo Supremo Tribunal Federal para que Moro determinasse a prisão do ex-presidente Lula, antes mesmo de esgotados os seus recursos legais contra uma decisão condenatória, vai muito além do caso concreto e coloca o Brasil na mais profunda barbárie social.

O sistema de justiça criminal brasileiro tem por base parâmetros e princípios que estabelecem regras para a ação estatal e são justamente essas regras que protegem o indivíduo contra o arbítrio do Estado.

A inexistência de regras ou o desrespeito a esses pressupostos para a ação estatal é o que diferencia um regime autoritário de um democrático.

Tenho denunciado desde sempre que a opção pelo autoritarismo e por uma forma absolutista de ação estatal tem sido a tônica da Operação Lava-Jato.

No entanto, o STF, que deveria ter como função a de corrigir e fazer cessar o arbítrio, tem optado, pela maioria dos seus membros, por referendá-lo.

A ilusão vendida por alguns meios de comunicação e seus ventríloquos ministros é a de que essa ação se restringe somente aos processados e condenados pela Lava-Jato.

Ledo engano. Pesquisa da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, enviada ao STF, revela que pelo menos 13.887 mandados de prisão foram expedidos pelo Tribunal de Justiça paulista, após a decisão de fevereiro de 2016, que permitiu a prisão em segunda instância sem trânsito em julgado.

Da mesma forma, a restrição do habeas corpus pelo STF e STJ tem contribuído para a perpetuação de erros judiciários e injustiças.

Pesquisa realizada pela FGV revelou que dos habeas corpus impetrados pelas Defensorias Públicas de todo o país entre 2008 e 2012, 66,4% têm a ordem concedida perante o STJ e 43,2% perante o STF.

Ou seja, os ministros que votaram pelo ultraje ao princípio constitucional da presunção de inocência não poderiam alegar ignorância, pois os dados estatísticos estão aí à inteira disposição deles e de suas assessorias.

Quando eclodiram as trágicas rebeliões nos presídios brasileiros no início de 2017, enviei ofício à presidenta do STF questionando justamente se havia, por parte do Supremo, estudos sobre os impactos sociais e orçamentários da decisão sobre a presunção de inocência no sistema de justiça criminal.

Até hoje não recebi qualquer resposta. O que torna evidente a irresponsável opção pela barbárie.

Resta claro que os expedientes do relator Edson Fachin — que desrespeitou o princípio do juiz natural — e da presidenta do STF — que se nega a pautar as ADCs sobre o tema — adotados para aprisionar o ex-presidente Lula tinham um claro e único objetivo que é o de interferir no processo político e eleitoral brasileiro para tentar banir a maior liderança popular da nossa história.

Mesmo que ao custo de jogar milhares de acusados, condenados e encarcerados na mais completa barbárie social.

Wadih Damous é deputado federal (PT-RJ)

Leia também:

Eloísa Machado: “Não se pode permitir que o Judiciário escolha quem governa e quem pode ser eleito”

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Publicação de: Viomundo

Mundo perplexo com atentados à esquerda brasileira

Jornais de Alemanha, França, Inglaterra e Estados Unidos, entre outros, publicam que ataques ao PT ocorrem no âmbito de um surto de ‘assassinatos políticos’ contra a esquerda brasileira concomitante à prisão do ex-presidente Lula.

No título do francês Le Monde, de centro-esquerda, “No Brasil, dois feridos por tiros contra apoiadores de Lula”. No momento do “ataque”, o homem gritou “Bolsonaro”, enfatizou a correspondente Claire Gatinois.

No conservador Le Figaro, com despacho da agência France Presse que ecoou noutros países, “Apoiadores de Lula feridos”.

Com a foto acima no inglês The Guardian, lembrando tiros anteriores contra a caravana de Lula e os que mataram a vereadora Marielle Franco, o correspondente Sam Cowie escreveu: “Conforme o país mergulhou na crise, houve um salto no número de assassinatos de ativistas e líderes políticos, rurais e ambientalistas”.

Na revista alemã Focus, “Vítimas feridas entre os apoiadores do ex-presidente Lula”. Nos sites do país, ecoou um despacho da agência alemã DPA que abria dizendo que “a prisão do popular ex-líder têm agitado os brasileiros há semanas. Agora, aconteceu um incidente armado”.

Nos EUA, os veículos se basearam na agência Associated Press, sob o enunciado “Atirador fere dois apoiadores de ex-presidente do Brasil”.

A repercussão no exterior do novo atentado ao PT só não foi maior ainda devido ao feriado internacional de primeiro de maio, mas os primeiros movimentos da imprensa estrangeira já mostram a perplexidade da comunidade internacional.

Os efeitos dos ataques à esquerda brasileira devem provocar, nas próximas semanas,  várias manifestações internacionais pedindo ao governo brasileiro respeito á pluralidade política e à democracia.

A prisão do ex-presidente Lula já é vista internacionalmente como parte dos atentados à democracia brasileira por grupos de extrema direita.

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Publicação de: Blog da Cidadania

Aprenda a fazer o famoso arroz de cuxá com ingredientes da Feira da Reforma Agrária


Comida

Prato típico é feito com camarão seco; feira acontece entre os dias 3 e 6 de maio

Redação |
Lula já provou e aprovou as delícias da Feira da Reforma Agrária Fotos Públicas/Feira da Reforma Agrária-2015

Ingredientes fresquinhos, sem agrotóxico e vindos direto do campo são o segredo das comidas típicas que serão vendidas na 3ª edição da Feira da Reforma Agrária, que acontece entre os dias 3 e 6 de maio, no parque da Água Branca, na zona Oeste de São Paulo.

Uma das maravilhas culinárias que já foi sucesso em edições anteriores é o arroz de cuxá, muito popular no Maranhão. O cuxá é uma hortaliça saborosa e meio azedinha, que na receita é refogada no azeite de coco do babaçu.

Confira os ingredientes:

Arroz de Cuxá

1 tomate picado

1 cebola picada

1 pimentão picado

Pimentinha de cheiro a gosto

150 gramas de camarão seco

500 gramas de arroz cozido

Gergelim a gosto

300 gramas de cuxá cozida

Azeite de coco de babaçu

Modo de preparo:

Coloque as folhas da cuxá para cozinhar até murcharem. Retire do fogo, escoe e amasse um pouco com a lateral de uma faca. Refogue todos os temperos no azeite de babaçu.

Acrescente o camarão, um pouco do gergelim e a caxá. Mexa até incorporar ao refogado.  Em seguida, acrescente o arroz cozido aos poucos, sem parar de mexer. O arroz precisa ficar bem verdinho.

Publicação de: Brasil de Fato – Blog

Demarcação de 223 terras indígenas pode ser atropelada por nova legislação ambiental


Descompasso

O projeto de lei que tramita rapidamente no Congresso, prejudica terras que aguardam demarcação há mais de 33 anos

Redação Rede Brasil Atual |
Aldeia Muratu dos Juruna da Terra Indígena Paquiçamba, na zona de impacto de Belo Monte Zé Gabriel / Greenpeace

Com 527 habitantes, a Terra Indígena Guapenu, na porção nordeste do Amazonas, aguarda há 33 anos a conclusão da demarcação. O território de 2.377,2 hectares está na mira de três projetos de mineração, de um pedido de autorização de pesquisa e dois requerimentos de pesquisa, que incidem sobre 97% da área. Há outras duas terras indígenas na fila de espera há 33 anos. Outras esperam há 25, 24 anos.

A demora na homologação de demarcações pelo governo de Michel Temer e o desmonte da Funai deixam 223 terras indígenas vulneráveis a conflitos com fazendeiros, a reintegrações de posse e crimes ambientais. De acordo com a nota técnica do Instituto Socioambiental (ISA), ao todo são mais de 9 milhões de hectares em estado de alerta diante de possíveis retrocessos na demarcação devido a 42 projetos de infraestrutura e outros 193 processos relativos a mineração previstos para áreas inseridas em 46 terras indígenas que ainda não foram homologadas.

O artigo 231, caput e § 5.º, da Constituição Federal amparam os indígenas contra projetos que causem impactos ambientais em seus territórios. No entanto, esse direito está em jogo com a flexibilização no licenciamento dessas obras, sem a análise prévia da Funai e dos povos indígenas.

Os técnicos do ISA chamam atenção para o fato de que as alterações propostas no Projeto de Lei do licenciamento ambiental (PL 3729/2004), discutida na Câmara, e Projeto de Lei do Senado 168/2018 ameaçam diretamente o processo de demarcação dessas 223 terras indígenas porque excluem a participação social e a transparência em projetos de impacto socioambiental.

Afinal, esses dois aspectos têm relação direta com as graves violações de direitos humanos envolvendo a disputa de territórios indígenas. É por isso que, para resguardar a sobrevivência dos povos indígenas e suas tradições, garantir a sua segurança, é preciso proteger as áreas demarcadas e acelerar o processo de demarcação, respeitando assim o artigo 231 da Constituição.

Leia artigo completo do Instituto Socioambiental clicando aqui.

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Publicação de: Brasil de Fato – Blog

Paulo Coelho ataca Lula, mas diz ser farsa caso do triplex

Em entrevista à Folha de São Paulo, o escritor laureado e expatriado Paulo Coelho, da Suíça, faz duríssimas críticas ao ex-presidente Lula por, supostamente, ter “abandonado” o ex-ministro  José Dirceu e por ter sido uma “decepção”.

Paulo Coelho pertence àquela esquerda que se afastou dos governos do PT enquanto a direita tratava de derrubar o único projeto progressista vitorioso em 500 anos de história brasileira e que tirou DEZENAS DE MILHÕES da miséria e outros tantos da pobreza e que organizou a economia como jamais ocorrera, permitindo que, pela primeira vez na história, o Brasil acumulasse reservas cambiais suficientes para resistir a crises externas.

Só como registro, o Brasil tinha US$ 37,7 bilhões, ao fim de 2002, e Dilma Rousseff deixou US$ 370 bilhões – em 2010, Lula deixou US$ 288 bilhões.

A história é diferente. Lula não tinha o que fazer em relação a José Dirceu. E José Dirceu sempre entendeu isso, assim como José Genoino e o PT.

Paulo Coelho não quer aceitar isso, mas não pensa como político ou militante. Porém, suas críticas a Lula são entremeadas por uma visão absolutamente lógica em relação ao caso do triplex, que só sendo muito canalha para dizer que faz sentido.

A reprodução desse trecho da entrevista de Paulo Coelho faz sentido porque mostra como é absurdo que alguém, em sã consciência, diga que tem algum sentido acreditar na sentença de Moro e no referendo dessa sentença pelo TRF4.

*

Na Folha de 30 de abril

Você postou, no dia da prisão do Lula, uma ironia contra o Judiciário e a Lava Jato, dizendo que agora era como se toda a corrupção do Brasil estivesse resolvida.?

Foi na condenação dele. No dia da prisão eu chamei o Lula de babaca. Já tive minhas ilusões com esses caras todos. E vi erro após erro após erro —não estou falando de tríplex, mas de erro político.

Você acha que o impeachment foi golpe??

Não vou falar de política. Vão dizer que eu sou isentão.

Você já falou muito de política até agora.?

Não é irritante esse negócio de manifesto? Todo dia eu recebo um.

Você acha a prisão do Lula justa??

Não vou falar. Mas não me põe [no jornal] como isentão.

Você pode responder algo.?

O Lula foi uma profunda decepção. Lamento muito. Era uma pessoa que eu achava que podia fazer muita diferença, que seria o melhor político. Se fosse, seria que nem o Salvador Allende. Foi isso que eu postei: o Lula vai se entregar? Porra, o cara é um babaca. Ele está no sindicato cercado.

A prisão é justa??

Essa história do tríplex é mal contada. O Poder Judiciário no Brasil ficou visível demais, quando ele não o é em nenhum país. As pessoas [os juízes] terminam tendo que atender a certos clamores. Você acha que essa história do tríplex [faz sentido]?

Não sou o entrevistado aqui, não é? Esse livro parece ter um desencanto com a esquerda…?

O desencanto já tinha ocorrido [quando escrevi]. Se tiver que resumir a história da minha vida: esquerda, passeatas, gás lacrimogêneo, Marx, Engels, Heidegger. Depois, manual de guerrilha, aquelas coisas, e então a fase hippie. Logo em seguida o Raul [Seixas, de quem foi parceiro musical]. Não teve uma volta minha para a esquerda.

Você fez campanha para o Lula. Você é de esquerda, não??

Quem era a alternativa? Fazer campanha por uma pessoa em quem você acredita e depois desacredita… É um mundo de desilusões, cara. [Coelho pede para o repórter desligar o gravador para falar em privado, depois a entrevista recomeça.]

Você já teve decepções pessoais com o PT também, não?

Houve uma vez em que Lula visitou o morro do Pavão-Pavãozinho e não foi ao projeto social que você tem lá. Como você se sentiu??Eu nunca fui prestigiado pelo PT. Um belo dia [em 2006] eu fui convidado para visitar a rainha [Elizabeth 2ª]. Lula era presidente. Vinha no convite o traje: gravata branca [nível mais formal do traje masculino de gala]. Aí vi uma matéria dizendo que a delegação brasileira ia de terno e gravata. Pensei: “Estou livre! Não vou ter que ir de white tie!” Aí me responde o Palácio [de Buckingham]: “Você não é convidado do seu governo, não te colocaram na lista, você é convidado da rainha. Tem que vir de white tie, sim”.

Mas o que aconteceu lá??

Estava fumando com uma amiga minha da realeza, chega um assessor do Lula e diz: “O presidente quer falar com você”. Vamos lá. Atravessamos aquele palácio, uma cena inesquecível. Vou aos aposentos do Lula pensando: “Porra, por que o Lula me chamou?”. No meio da conversa, ficou claro que ele estava se justificando para mim, por eu ter apoiado o José Dirceu, e ele não.

Isso foi em 2006, logo após Dirceu ser cassado, no Mensalão, e quando passou Réveillon na sua casa e vocês se aproximaram.?

Ele jogou o José Dirceu como boi de piranha. Viu que eu apoiei o Zé Dirceu, que eu nem conhecia —vi esse cara sofrendo. Era um ano que quem queria ir lá para casa era o Hugo Chávez! [risos] E o Lula se justificou, o que eu acho uma declaração muito esquisita. Ele pode até negar, mas dona Marisa estava junto. Ele jogou o Dirceu aos cães. Ele foi cassado?

Foi, perdeu o posto de deputado em 1º dezembro de 2005.?

Foi minha grande decepção com o Lula. Uma das qualidades que eu prezo é a lealdade. Nessa entrevista [de Dirceu à Folha, publicada em 20/4], o Zé diz que dedicou a vida dele ao Lula. Como é que o Lula deixa isso acontecer? E sentiu necessidade de me explicar, o que é meio bizarro.

 

 

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Publicação de: Blog da Cidadania

Quando a mídia reconhecerá que a reforma trabalhista arruína o país?

No último sábado, a  imprensa informou mais um dado desolador sobre o mercado de trabalho que desfaz a conversa fiada ensaiada pela mesma imprensa no final do ano passado, começo deste ano, de que estaria em curso uma “retomada” do crescimento econômico graças a “reformas” do governo golpista de Michel Temer e do PSDB.

O desemprego no Brasil ficou em 13,1% no primeiro trimestre de 2018, segundo informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na sexta (27). Ao todo, 13,7 milhões de pessoas procuraram emprego no país no período.

A taxa registrada no trimestre encerrado em março foi 1,3 ponto percentual maior do que os 11,8% verificados no trimestre imediatamente anterior, terminado em dezembro de 2017. Isso significa um aumento de 1,4 milhão de pessoas no contingente de desempregados.

No primeiro dia útil desta semana, a imprensa noticia que os poucos empregos criados, em número menor que o de empregos eliminados, são de, apenas, dois salários mínimos.

O Brasil só criou empregos formais, neste ano, com remuneração de até dois salários mínimos (R$ 1.908). As contratações foram maiores do que as demissões apenas em vagas com rendimentos mais baixos, segundo dados do primeiro trimestre levantados pela Folha no Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).

Houve fechamento de vagas em todas as faixas com vencimento maior do que dois salários mínimos.

A imprensa corporativa divulga esses dados assim, sem compromisso, sem mea culpa, sem parecer que previu e defendeu o contrário em editoriais e em avalanches de matérias.

Recentemente, uma conhecida  tuiteira expôs, com simplicidade e inteligência, a contradição da imprensa.

Essa contradição fica patente simplesmente resgatando-se o que essa imprensa dizia exatamente um ano atrás em editoriais como esse da Folha de São Paulo, no qual garantia que a tal reforma trabalhista geraria empregos, ao passo que a sua implantação mostra que está gerando pobreza, sofrimento e todos os desastres sociais e econômicos que políticos públicas equivocadas e/ou mal-intencionadas geram.

Confira o editorial “Avanço trabalhista”, publicado pela Folha de São Paulo em 28 de abril de 2018.

Não é fácil fazer pessoas com mentes embotadas pela lavagem cerebral midiática entenderem que foram enganadas e que o golpe de 2016 serviu para isso, para gerar desemprego porque, assim, a mão-de-obra, para os patrões, fica mais barata.

Esse problema não afeta apenas os “peões”. Afeta os “executivos”, os gerentes de banco, os diretores, os advogados das empresas, os médicos, os engenheiros, todos os “bacanas” que acham que são ricos e que devem votar como o dono do Bradesco, mas que estão sujeitos às vicissitudes econômicas tanto quanto o faxineiro da empresa…

Espalhe esta matéria para tentar acordar aqueles que, por terem mais instrução e melhores condições de vida, deveriam ser mais inteligentes, mas, por preconceito e arrogância, agem como analfabetos e ignorantes, deixando de criticar políticas públicas que estão afundando a economia brasileira até o ponto de ruptura social.

Enquanto o Brasil não entender que o golpe de 2016 foi dado para isso, para tirar do pobre e do remediado (classe média) o que os governos do PT deram e devolver aos ricos, a situação deste país continuará piorando.

Até onde? Só Deus sabe…

 

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É melhor o agronegócio jair se acostumando a ser pobre!

Em viagem recente aos EUA, o candidato de extrema-direita à Presidência, Jair Bolsonaro, bateu continência para a bandeira norte-americana e, desde então, vem atacando inimigos reais e adversários comerciais dos Estados Unidos. Nesse contexto, vale ler análise bem-humorada do doutor em sociologia pela Universidade de Oxford Celso da Rocha Barros que mostra como a burrice do pretenso eleitor endinheirado desse energúmeno pode lhe custar caro.

*

Bolsonaro vai quebrar o agronegócio?

Celso da Rocha Barros, na Folha

Se ele for eleito e brigar com a China para puxar o saco de Trump, acabou, amigos

30.abr.2018 às 2h00

Em seu esforço para tornar-se o macaco Twelves de Donald Trump, Jair Bolsonaro resolveu xingar os chineses.

Reclamou do aumento da participação chinesa na economia brasileira, da venda de estatais brasileiras para capital chinês, e, com o intuito evidente de provocar Pequim, fez um tour pela Ásia em que visitou Taiwan, mas não a China.

A China reivindica Taiwan como parte de seu território, e Taiwan já disputou com Pequim o direito de ser reconhecida internacionalmente como governo legítimo do território chinês.

Até aí, campanha eleitoral é sempre uma chance para os candidatos chamarem de inteligência a burrice de seus eleitores, e os bolsonaristas acreditam nessas palhaçadas de Trump, Olavo de Carvalho, enfim.

O deputado Jair Bolsonaro, com chapéu típico oriental, é recebido por apoiadores em Hamamatsu, no Japão, em seu tour pela Ásia

O problema é o seguinte: uma parte importante desse mesmo eleitorado bolsonarista não pode se dar ao luxo de brigar com a China.

Olhem as pesquisas: Bolsonaro se sai especialmente bem em áreas em que o agronegócio é forte. Essas mesmas áreas votaram em Aécio Neves em 2014 e têm sido sistematicamente antipetistas nas últimas eleições.

Há algum sentido nesse voto. Se você mora em uma fazenda longe de um centro urbano (e, portanto, de uma delegacia), é bastante natural que apoie candidatos que defendem o direito de portar armas.

O interior do Brasil é mais conservador, culturalmente, do que os grandes centros urbanos. É natural que o discurso agressivo contra os sem-terra tenha boa acolhida junto aos proprietários rurais.

Mas o anticomunismo do agronegócio brasileiro tem um limite claro: a China comunista é um de seus principais fregueses. Grande parte da prosperidade recente da agropecuária brasileira se deve ao fato de que os chineses, sob a liderança de Deng Xiaoping, abraçaram o mercado, modernizaram a economia, e adquiriram novos hábitos, como comer.

Mais de um bilhão de seres humanos apareceu no mercado mundial querendo comprar comida. E nós, no Brasil, temos bastante comida para vender.

Isto é: o agronegócio brasileiro pode se divertir falando mal de comunista pobre —Cuba, Coreia do Norte, Venezuela— mas não pode sonhar em brigar com os comunistas que estão ficando ricos —os chineses.

Até porque, em termos econômicos, a China não é mais comunista faz tempo: o comunismo só sobrevive no sistema político autoritário. Mas desde quando os bolsonaristas são contra o autoritarismo?

Se Bolsonaro for eleito presidente do Brasil e resolver brigar com a China para puxar o saco de Trump, a China vai retaliar o Brasil aumentando as tarifas sobre os produtos brasileiros. E aí acabou, amigos.

Há vários países no mundo que vendem o que nós vendemos —inclusive aqui na vizinhança. Mas só China e Índia têm mais de um bilhão de consumidores.

A guerra comercial de Trump contra a China já é estúpida, ruim para a economia americana. Mas os Estados Unidos ainda têm chances razoáveis de sobreviver a este surto de estupidez. Nós não teríamos.

Se a China resolver retaliar o Brasil comercialmente, Bolsonaro e seus filhos vão ter que começar a produzir nióbio por cada uma de suas reentrâncias para começar a compensar o efeito dessa catástrofe na economia brasileira. E aí é melhor o pessoal do agronegócio Jair se acostumando a ser pobre.

Celso Rocha de Barros
Doutor em sociologia pela Universidade de Oxford.

 

 

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