Da Redação

Marcelo Freixo, do PSOL carioca, escandalizou os petistas com a entrevista à Folha de S. Paulo em que disse: “não sei se é o momento de unificar a esquerda, não”.

Pelo menos as falas de Freixo que a Folha escolheu reproduzir carregam um tom de infantilidade que não são característica dele.

Expressam um eleitoralismo que o PSOL frequentemente condena no PT.

É óbvio que, a reboque do PT, as chances de o PSOL crescer nas eleições de 2018 são ínfimas — e o objetivo de qualquer partido é crescer.

Não é por outro motivo que os petistas reagiram furiosamente à entrevista, desqualificando Freixo muitas vezes com argumentos toscos: levar Lula à eleição de 2018 diz respeito, entre outras coisas, à própria sobrevivência do PT.

Já é dado que teremos mais de um candidato entre o centro e a esquerda em 2018: Lula ou quem ele indicar, Manuela d’Ávila, Ciro Gomes e, possivelmente, Guilherme Boulos (é a pretensão do PSOL).

As redes sociais, às vezes, por suas características intrínsecas — imediatismo, concisão — conduzem a um debate fulanizado, mas há uma discussão de fundo sobre o futuro da esquerda brasileira que é realmente interessante.

Jair Galvão, no Facebook, fez a indicação de um vídeo instrutivo. É de um debate que reuniu André Singer e Guilherme Boulos (abaixo, a partir da íntegra do debate, editamos a fala dos dois).

Singer lembra, por exemplo, que não foi um “erro tático” do governo Lula não politizar, nem mobilizar os setores populares que aderiram ao lulismo, mas condição intrínseca ao projeto de não confrontar o capital.

Ele vai além: o lulismo desmobilizou e despolitizou a fração organizada da classe trabalhadora, desfazendo o trabalho que o PT havia feito desde sua fundação, para poder cumprir seus objetivos.

Para Singer, isso e mais a aliança com a “velha política” foi o que permitiu ao lulismo pela primeira vez na História liderar um agrupamento popular que ganhou eleições e governou durante 14 anos, com benefícios significativos para os mais pobres.

É por isso que Singer diz que o “ciclo lulista” acabou, o que não significa que o lulismo acabou. Acabou o ciclo em que se pretendia combater a pobreza sem confrontar o capital.

A pergunta crucial, então, é: Lula, eleito em 2018, terá condições de repetir a dose?

É a resposta a esta pergunta que divide a esquerda.

Os petistas, obviamente, dizem que sim.

Freixo, em sua entrevista à Folha, diz indiretamente que não, lembrando que se Lula quisesse recompor o campo progressista “não andaria de braços dados com Renan Calheiros”.

Guilherme Boulos, um apoiador até agora incondicional de Lula, lembra em sua fala acima que “o lulismo não tem mais margem de manobra”.

“Se não mudar a maré internacional, está bloqueado um projeto de avanços sem conflito”, afirma.

Dependendo da decisão do TRF4 sobre Lula e das consequências dela, Boulos poderá ser o candidato do PSOL em 2018.

Sobre a decisão pesa outro ponto que divide a esquerda: as manifestações de 2013.

Para alguns petistas, foi uma ação orquestrada pela CIA para derrubar Dilma Rousseff, em que parte da esquerda caiu de gaiata.

Para gente ligada ao PSOL, foi expressão dos limites dos governos de conciliação de classes liderados pelo PT.

Ajudariam a explicar porque o povão não foi às ruas defender Dilma: especialmente entre os mais jovens, o PT estaria identificado com o establishment, ou seja, um partido comprometido até a medula com a velha política que é preciso demolir.

A incompreensão da esquerda sobre o caráter anti-establishment de 2013 teria aberto espaço para Jair Bolsonaro, por exemplo.

Lula 2018 seria, assim, a reedição de um projeto falido.

João Pedro Stédile, coordenador do MST, não pensa assim. Numa análise de conjuntura que republicamos abaixo, ele aposta tudo em Lula.

O ex-presidente já foi escolhido o candidato da classe trabalhadora, diz Stédile.

Por isso, o MST foca a luta política em eleger Lula em 2018 e, paralelamente, organizar referendos que possam revogar as medidas antitrabalhistas e antinacionais de Temer.

Os vídeos e o áudio que reproduzimos neste post são uma demonstração de que o debate à esquerda não precisa repetir o tom vulgar das discussões à direita.

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Publicação de: Viomundo