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Da Redação, com LCAC

No acampamento da Paulista, ironicamente diante do número 1313 da avenida, um homem aparece com um crachá em que está escrito Júnior.

É Agnaldo Santos Pereira Júnior.

O acampamento do qual ele participa até recentemente tinha bonecos enforcados do ex-presidente Lula e da presidente Dilma e uma faixa com os dizeres “Mexeu com Moro, mexeu com a Nação“.

Os acampados não comem mortadela, mas presunto e queijo. Dia desses, comeram filé mignon oferecido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo.

O presidente da FIESP, Paulo Skaf, é um dos apoiadores do impeachment de Dilma. A entidade patrocina uma campanha contra a volta da CPMF que usa um pato amarelo como símbolo.

O pato frequenta manifestações pelo impeachment.

Depois que Lula foi ao Palácio do Planalto para o anúncio oficial de que se tornaria ministro da Casa Civil, o juiz Sérgio Moro vazou gravações de conversas telefônicas do ex-presidente.

Nas palavras do ministro Teori Zavascki, do STF, algumas foram vazadas ilegalmente, por envolver autoridades com foro privilegiado.

A TV Globo disseminou o conteúdo recebido do juiz Moro freneticamente, inicialmente através de sua emissora de notícias. Passou a transmitir ao vivo protestos em Brasília e em São Paulo.

A FIESP não decepcionou: nem bem os manifestantes chegaram à Paulista e foram saudados com um “Renúncia Já” estampado no letreiro que cobre o prédio da entidade.

Foi um show de luzes!

Em 1964, segundo o coronel reformado do Exército Erimá Pinheiro Moreira, a FIESP usou dólares para convencer o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, a trocar de lado e abandonar João Goulart, o que consolidou a quartelada (veja na reportagem clicando aqui). Sem São Paulo, restou apenas Porto Alegre para resistir — Jango preferiu o exílio.

Ecos daquele golpe são ouvidos hoje na Paulista. Alguns dos 70 acampados apoiam a intervenção militar para “limpar a política”.

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Instrumentos do golpe: bonecos infláveis, Júnior e a demonização alheia

O acampamento na calçada da FIESP seria inimaginável sem autorização da entidade empresarial.

Assim como o pato de plástico e o letreiro gigantesco na fachada do prédio, é um eficaz chamariz para a mídia.

Montar acampamentos ou incentivá-los não é propriamente uma novidade. Aconteceu em várias “revoluções” recentes, do Cairo a Kiev, a capital da Ucrânia.

Na crise política da Venezuela, acampados também tiveram um papel de destaque.

A tarefa foi desempenhada por estudantes universitários, que simularam acorrentamento e fizeram greve de fome diante da sede local da Organização dos Estados Americanos (OEA) para denunciar o então presidente Hugo Chávez.

Foi um grande atrativo para a mídia, principalmente para os correspondentes internacionais.

Alguns dos estudantes eram do grupo denominado Javu, Juventude Ativa Venezuela Unida. Via internet, eles disseminaram os famosos “198 pontos de ação” da desobediência civil.

Os pontos constam do livro de Gene Sharp chamado A Política da Ação Não Violenta.

Sharp, do Instituto Albert Einstein, em Boston, inspirou as chamadas “revoluções coloridas” no entorno da Rússia, no Oriente Médio e no norte da África.

“Revoluções” que mobilizaram jovens, usaram intensamente as redes sociais e foram precedidas por “penetração” da sociedade civil através de organizações privadas ou públicas dos Estados Unidos.

A advogada e jornalista investigativa Eva Golinger há anos denuncia que Washington tenta provocar um “golpe suave” na Venezuela.

Com a falência dos partidos tradicionais, como o democrata cristão Copei e a social democrata AD, era preciso criar novas agremiações naquele país.

Dois deles, o Primero Justicia e o Un Novo Tiempo, foram resultado da aplicação de métodos importados dos Estados Unidos. É um investimento de longo prazo.

Um telegrama secreto vazado pelo Wikileaks em 2006 definiu os objetivos do Escritório de Iniciativas de Transição, o OTI, da United States Agency for International Development, a USAid, para a Venezuela.

O texto do telegrama revelou que o OTI ajudou mais de 300 entidades da sociedade civil a se organizar, com financiamento de U$ 15 milhões.

“Penetrar e dividir a base do chavismo” era um dos objetivos. Segundo o texto do telegrama, com U$ 1,1 milhão foram organizados 3.000 fóruns nos quais lideranças da oposição podiam se aproximar de defensores de Hugo Chávez “com o efeito desejado de afastá-los lentamente do chavismo”.

Na Venezuela, a organização Javu adotou o mesmo símbolo — e as mesmas técnicas  — de um grupo denominado Otpor: a mão direita cerrada.

A Otpor, com apoio dos Estados Unidos, organizou a campanha de desobediência civil que antecedeu a intervenção da OTAN na Sérvia.

Veja aqui um documentário sobre o tema. E aqui um texto da Natália Viana sobre as “revoluções coloridas”. Todas, aliás, resultaram em desestabilização política e econômica, geraram grande ressentimento, quando não mortes e guerra civil.

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Ratos diante do MP em Caracas, correntes cenográficas do Javu e cenas hip do Otpor na Sérvia:  é preciso gerar imagens dramáticas, mesmo que desprovidas de conteúdo, para comunicar ao mesmo tempo desafio, vitimização e idealismo dos jovens. Quem poderia ser contra eles?

Na Venezuela, um das ações dos estudantes da Javu foi soltar ratos diante da sede do Ministério Público, que acusavam de ter se corrompido para defender o chavismo.

No Brasil, ratos foram soltos no plenário da CPI da Petrobras durante depoimento do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto.

Estas ações espetaculosas geram imagens e vídeos de grande impacto. Na era da informação superficial, carregam mensagens visuais poderosas.

É nisso que pensava o juiz Sérgio Moro quando autorizou a condução coercitiva do ex-presidente Lula até o aeroporto de Congonhas para dar depoimento.

Produzir imagens para a mídia é o que estava, também, por trás da malhação de Judas com bonecos de Lula e Dilma, promovida no último sábado pelos acampados na Paulista.

O mesmo vale para o boneco inflável do ministro Teori Zavascki, que desautorizou Moro e agora se junta a Dilma e Lula diante da FIESP.

Tudo isso atrai atenção — e atenção é com Agnaldo Santos Pereira Júnior, o Júnior Pereira, que por motivos desconhecidos também se identifica como Júnior de França.

No Facebook, ele incentiva a adesão às páginas do Acampamento Patriótico.

Numa recente entrevista ao portal R7, da Record, foi descrito assim:

O produtor de eventos Junior de França, de 28 anos, é uma das pessoas que ajudam a organizar o acampamento, por ser um dos primeiros a chegar no acampamento. França conta que a ideia era chamar a atenção para a causa, mas confessa que as pessoas pararem para fotografar foi uma surpresa.

— Quando montamos as barracas, o objetivo era mesmo chamar a atenção, mas não esperávamos que conseguiríamos virar atração turística. Tem gente que quer tirar foto com a gente, além dos ‘gringos’, que param para fotografar também.

Júnior é muito ativo no acampamento.

Ele também estrelou uma reportagem da TV portuguesa SIC, a campeã de audiência em Portugal.

Júnior, vestindo crachá, também aparece em fotos e em pelo menos um vídeo participando da malhação e queima de bonecos de Lula e Dilma, no sábado de Aleluia.

Uma das fotos saiu em O Globo.

Ele se apresenta como empresário, dono da Absolute Eventos. No Facebook, recruta homens e mulheres para participar de feiras.

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Golpe das sub-celebridades: Júnior, na TV portuguesa, dá um ar popular à “revolução do Skaf”, o industrial que vive de aluguéis; Alane foi ameaçada pelo porta-voz do acampamento

Mas, depois de ter corruptos na liderança de uma campanha pelo impeachment contra uma presidente que não é acusada de crime, o Brasil corre o sério risco de esculhambar de vez os golpes suaves.

É que Júnior de França, o militante que posou de porta-voz do acampamento da FIESP, já foi acusado de ser estelionatário.

A acusação não partiu de qualquer um.

Foi da TV Record e do portal R7. 

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A reportagem foi publicada em julho de 2015.

Júnior se passou por jornalista de TV, usou um e-mail como se fosse funcionário da emissora e tentou fazer sexo com modelos que contratava.

Por telefone, ameaçou Alane Pereira, a musa do América de Natal, em conversa que foi gravada por ela:

“Alane, você toma cuidado, toma cuidado! Cara, se você tivesse amor na tua vida, cara, você não me desafiaria. Eu sou louco quando eu quero. Você toma cuidado! É sério. Você não sabe quem eu sou e com quem eu ando, Alane”, disse Pereira Junior à modelo, por telefone. “Para mim, você é merda! Para mim, seu corpo só serve para ser utilizado mesmo para transar. Não tem outra utilidade”, continuou o falsário. 

Agora, Júnior aparentemente está afastado das atividades empresariais — ou as desenvolve a partir de uma barraca na avenida Paulista.

Ele não é filiado à FIESP, mas como militante do impeachment deu um ar ao mesmo tempo popular e bem articulado ao acampamento instalado à sombra de Paulo Skaf.

Os manifestantes poderiam ter montado o acampamento em muitos lugares de São Paulo, mas curiosamente escolheram a entrada de uma entidade empresarial que ajudou a dar o golpe de 64!

Na entrevista à TV portuguesa, depois de aparecer em cenas dentro de uma barraca, Júnior de França acrescentou um sabor econômico amargo à crise brasileira.

É uma crise da qual empresários que nada produzem, como Skaf, pretendem tirar proveito para retirar direitos… de gente como o próprio Júnior.

À repórter da SIC, parceira da TV Globo em Portugal, o porta-voz Júnior de França denunciou o motivo para o impeachment de Dilma:

Antes você ia no mercado, você via aquele chocolate gostoso ali, você comprava. Hoje você não pode comprar porque [o preço] está três vezes, quatro vezes maior. Muita gente não está nem fazendo compra mensal, está comprando o necessário pra comer e vai assim sucessivamente.

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Publicação de: Viomundo