Por Katia Passos, para Jornalistas Livres (com relatos de Sato do Brasil e Adolfo Várzea Jornalistas Livres. Fotos: Roberto Seracinskis e Gabriela Zanardi).

16 de março de 2017

 
Passada a força do povo nas ruas, demonstrada no belo 15 de março, os movimentos sociais e sindicais passaram a anunciar que uma greve geral seria a próxima empreitada do povo mais pobre do país, no enfrentamento à perda de direitos. A parti daí, para mim, foram mais de 30 dias de máxima ansiedade até a madrugada do dia 28 de abril chegar.
 

Madrugada de 28 de abril de 2017

 
 
Eu não tinha ideia do que poderia acontecer. E de fato, evitei pensar sobre isso. Muito feliz com o 15 de março, mas com a memória daquele 17 de abril de 2016, onde, em Brasília, mesmo trabalhando como Jornalista Livre, com dor no peito, entristeci e chorei. 
 
Ali, a intuição não precisava ser muito aguçada para sentir que estávamos descendo por um caminho áspero, rochoso e sangrento. E, infelizmente, não deu outra. Então, apreensiva, optei por deixar de lado qualquer pensamento sobre o 28 de abril. 
 
Mas depois de anos de reportagem, confesso: tive medo de ir às ruas para a cobertura das primeiras ações de greve na madrugada do 28. Mas, imediatamente, meu temor desapareceu quando ouvi a frase: “não tema e reflita sobre o futuro de suas filhas e de tudo aquilo em que você acredita: a democracia, os direitos humanos e o poder que o povo brasileiro tem de transformar o sofrimento, em uma única voz aguerrida que clama contra os retrocessos que sofremos na atual conjuntura política”, foi a Carmem Silva, coordenadora da Frente de Luta por Moradia que meu deu forças pra enfrentar o meu medo. 
 
Então, naquela madrugada, eu, Adolfo Várzea e Sato do Brasil fomos acompanhar a primeira ação em SP em apoio à greve geral. A FLM e a Central de Movimentos Populares ocuparam um terreno vazio no Centro de São Paulo, quase no quintal da Prefeitura. No momento da entrada no local, me dei conta que eu que passava ali quase todo os dias, mas nunca tinha dado nenhuma atenção ao espaço. Vi nos rostos dos sem-teto a demonstração de luta por inclusão numa verdadeira cidade linda. A Ocupação Abril Vermelho na Ladeira da Memória – Casa Aberta Praça de Todos nasceu. O Estado esqueceu seu dever, mas ainda bem que existem Carmens, Fernandes, Márcias, Joanas, Josés, Fabrícios e tantos outros que passaram ali e enxergaram uma área para a cultura e o lazer, num local histórico no centro da cidade, por onde milhares de outros trabalhadores correm por medo de assaltos. 
 
Horas antes, o Sato do Brasil, tinha acabado de voltar de uma cobertura da Conferência indígena em Brasília e num dos escritos, desabafou lindamente: “Eu não aguento mais. Em 2 dias, vi bombas sendo arremessadas contra os índios em frente ao Congresso. Crianças, idosos, mulheres, homens. Povo que sempre esteve aqui. Eu não aguento mais. Eu vi lideranças indígenas sendo escorraçadas do Senado, escoltadas pela cavalaria e tropa de choque, como se fossem animais para o abate.”
 
De fato, eu também não aguento mais. Mas todos os dias, me sinto na missão de continuar a ser voluntariamente jornalista livre. E, essa greve geral serviu para recarregar as baterias.

Manhã, tarde e noite de 28 de abril de 2017

Durante o dia, percorri diversos outros pontos de ações da greve, mas nada foi mais emblemático, bonito e revigorante do que a caminhada até à casa de Temer. Eram mais de 70 mil pessoas, uma grande massa que se uniu contra as reforma trabalhista e o fim da aposentadoria pública. Em vários momentos da reportagem, eu parei, só para ver aquela a caminhada, ouvir os gritos de ordem e olhar detalhadamente para quem estava lá.

Vi até minha família passar. Me emocionei. Vi senhoras e senhores que não vejo há tempos em manifestações levantarem cartazes, vi crianças levantarem cartazes, vi os secundaristas que ocuparam as escolas em 2015 cantarem suas canções contra a reforma da previdência. Parecia tudo uma voz só. Todos eles encheram meu coração de alegria.
 
Na chegada à casa de Temer, como sempre, muito policiamento.
 A rua que dava acesso aos portões da mansão estava completamente cercada. O povo que se debruçava na grade tentava conversar carinhosamente com os policiais que estavam na parte de dentro do cerco, chamando em vão, a categoria para se juntar aos protestos contra o presidente. Foi bom ver que bom sentir que o povo, mesmo golpeado, tem ainda muito amor no coração.
Mais cedo, Sato havia cobrindo um dos inúmeros “trancaços” de rua da cidade e desabafou : “Eu não aguento mais. Eu vi homens e mulheres fortes e de luta serem perseguidos como caça pelas ruas do centro de SP por mais de meia hora, encurraladas por gás e balas de borracha atiradas a esmo em direção às suas cabeças. Eu vi crianças de colo chorando e senhoras sentadas no meio fio, desorientadas sem poder respirar direito. Eu não aguento mais.”
Depois do diálogo do povo com os policiais na frente da casa de Temer, a mesma cena da manhã, descrita no desabafo de Sato, recomeçou.
Vejo três caveirões entrando na rua onde eu estava. E eles também me viram. Um deles, em velocidade consideravelmente alta, foi literalmente jogado em cima de mim e quase me atropelou. Eu, já equipada para uma verdadeira guerra, com capacete e máscara de gás corri, escapei. 
A rua estava irrespirável. O barulho horripilante dos estouros de uma sequência de bombas e balas de borracha desferidas contra manifestantes e um grupo de jovens do movimento anarquista, tomaram conta da rua.


 Eu não consegui entrar ao vivo para mostrar em tempo real as cenas, então, filmei alguns desses momentos e comecei a passar muito mal. Tentei me proteger dos tiros, das bombas e de qualquer outro tipo de agressão, mas estava impossível continuar ali. Vomitei muito. Um segurança das mansões luxuosas do entorno, viu e me socorreu na sua moto. 
Sobre esse momento, Sato também escreveu: “Eu vi milhares correndo entre árvores, escorregando, caindo, levantando, mulheres sendo amparadas, senhores e senhoras com idade de meus pais andando tão rápido quanto suas pernas puderam deixar, lágrimas por raiva e por gás, desespero por não encontrar a saída, o barulho das bombas ecoando nas garagens cheias de ferraris, luzes nas calçadas se acendendo denunciando mais um corpo atingido, meus pés estavam em frangalhos, fumaça explodindo nos meus e nos teus olhos, alguém desistindo e sendo ajudado a não desistir, pais puxando seus filhos pelos braços, gritos, abraços, choro, respiro. Eu não aguento mais. Eu vi no céu e no chão, no espírito e na rua, o descompasso de quem reina machucando os seus. Traidores e impostores acuando e perseguindo qualquer um que se levantasse contra o escárnio e a injustiça.”
Vimos dor e cansaço. E sabemos que há um poder muito maior do que a vontade daqueles policiais em machucar o povo. Por trás daqueles escudos, há oprimidos. Há trabalhadores que também estão perdendo tudo, todos os dias e que em muitos desses dias, nem sabem se voltarão para casa, para suas famílias. Eles saem de seus batalhões alimentados pelo mandos de ódio de seus chefes de Segurança Pública e com a obrigação de serem cruéis custe o que custar, inclusive, colocando em risco suas próprias vidas.
 
Quando olho dentro daquela fresta transparente dos escudos consigo ver algo muito além de um homem, ou uma mulher cruel que “quer” me tirar minha visão acertando o olho com uma bala de borracha. longe de mim querer aqui justificar o que sofremos na mão de uma polícia despreparada. Mas eu não posso deixar de dizer que vejo um oprimido fruto da degradação do Estado e penso que esses policiais também possuem graves sofrimentos particulares. É um caminho tortuoso. 



“O ato estava em festa, uma comemoração ao sucesso da greve geral. Entrevistávamos o senador Lindberg Farias, próximo ao caminhão de som, quando uma bomba foi atirada em nossa direção. Andamos rápido em direção a Praça Panamericana e vimos muitos manifestantes sendo perseguidos pela polícia. Não dá pra imaginar isso nos atos organizados pelo MBL. Vivemos um terrorismo de Estado. Vivemos um momento de Ditadura Militar. Sinto revolta.” Desabafou o jornalista Livre Adolfo Garroux
Durante nossas coberturas, no momento em que a repressão policial começa, nosso peito arranha, as pernas endurecem e os músculos não obedecem mais. E, quando ainda ao longe os ruídos de bombas chegavam aos ouvidos, ainda assim, resolvemos continuar nas ruas e nas praças, com câmera, lápis, sonhos e abraços.

JL  Sato conversa com manifestante na concentração do ato, no Largo da Batata

Pelas redes sociais, provocamos os silenciosos, a iluminar os indecisos, a narrar as noites insanas, a sorrir com os lutadores, a caminhar com irmãos irmãs, sempre na direção de um dia mais ensolarado. 
Ao chegar em casa, assisti o vídeo do encerramento do ato do Rio de Janeiro. Assisti umas cinco vezes para acreditar que um policial havia atirado contra o palco. Fiz um print da tela. E a cena é impressionante.

Bomba lançada pela PM-RJ em palco

Relembrei muitos momentos nos quais escapei e agradeci aos deuses pelo fato do cinegrafista que registrara aquela cena ter se safado sem ferimentos. Eu não aguento mais. Nós não aguentamos mais. Mas não podemos cansar. Não podemos deixar a mídia tradicional mostrar apenas vidraças de bancos quebradas. A linda greve geral ultrapassou os limites da importância para além disso, o povo peitou patrão, se uniu e cruzou os braços, e termos enfrentada tamanha repressão policial desproporcional não desanima. Por isso, amanhã, nos chamem, nos convidem, e nos acompanhem. Porque temos que reconstruir o país.

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