Monthdezembro 2016

Dono da Riachuelo se junta a Montenegro e Quiroga. Defensor do impeachment para “salvar a economia”, viu queda de 44% no lucro de sua empresa

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Montenegro, do Ibope, derrotou Lula em 2010; Quiroga elegeu Serra

Sem Dilma, volta de investimentos seria ‘instantânea’, diz presidente da Riachuelo

por Ruth Costas, da BBC Brasil em São Paulo, 25 março 2016

Reprodução parcial

Presidente da Riachuelo – uma das maiores redes do varejo brasileiro – Flávio Rocha defende que o empresariado do país precisa “sair da toca” sobre suas posições políticas para garantir uma guinada liberal no Brasil – caminho que, na sua avaliação, poderia tirar o país da crise.

Rocha foi um dos primeiros empresários brasileiros a se posicionar abertamente a favor da saída de Dilma Rousseff da Presidência e diz acreditar que, nesse caso, haveria uma rápida retomada dos investimentos na economia real.

“Seria instantâneo”, defende. “É o que está acontecendo na Argentina. Não precisou de dez dias para a criação de um círculo virtuoso.”

BBC Brasil – O senhor tem se posicionado a favor do impeachment, mas mesmo se o afastamento da presidente for aprovado, há incógnitas sobre a estabilidade de futuros arranjos políticos. Não é arriscado assumir uma posição nesse cenário incerto?

Flávio Rocha – Acho que estamos em uma troca de ciclos que implicará em uma mudança no papel do Estado no Brasil. Encerramos um triste ciclo de mais uma tentativa de usar o Estado como indutor do desenvolvimento, que no mundo todo só gerou empobrecimento e desemprego. E há condições para uma virada de página em direção a um modelo pautado pelo binômio democracia e livre mercado, que é como se consegue a prosperidade.

O eleitor brasileiro está mais maduro, o que favorece a virada. Está deixando de ser um eleitor súdito para ser um eleitor cidadão, que vê o Estado mais ou menos como sua operadora de telefonia ou TV a cabo: um prestador de serviço do qual deve ser cobrado eficiência e baixo custo. Esse será o estopim da mudança, que pode acabar com esse Estado gigantesco, hipertrofiado, um Estado de 40% do PIB que existe para garantir os seus próprios privilégios.

O novo ciclo será marcado pela busca do Estado prestador de serviço e eficiente.

Mas esse novo modelo pressupõe um empresariado mais protagonista. Os que investem e dão empregos serão uma liderança necessária nesse processo. Quando eu me posicionei, há algum tempo, realmente pouquíssimos empresários tinham se manifestado. Mas vejo com muita alegria cada vez mais lideranças empresariais conscientes de seu novo papel “saindo da toca”.

[…]

 

BBC Brasil – O mercado financeiro parece animado com a possibilidade de uma saída da atual presidente. Como empresário do varejo, que efeito acha que isso teria nos investimentos na economia real?

Rocha – Seria instantâneo. Bastaria uma troca da sinalização. É o que está acontecendo na Argentina. Não precisou de dez dias para a criação de um círculo virtuoso. A partir do momento que você sinaliza que está entrando em campo um governo que entende as delicadas engrenagens do livre mercado e vai colocar a sua sabedoria a favor do desenvolvimento, o fluxo de investimentos se reestabelece e a confiança desabrocha.

BBC Brasil – Para o senhor, o eleitor brasileiro está cansado da social-democracia?

Rocha – Exato. Acho que o brasileiro se cansou dessa experiência socializante. Nós competimos com países que têm Estados de 12%, 15%, 17% do PIB. Aqui, depois da constituinte era 22%. Hoje temos 37% de carga tributária, com mais 10% de déficit publico.

E o que é social-democracia? Na Rússia, na Revolução de 1917, existiam os bolcheviques que queriam o socialismo pela via violenta e os mencheviques, que queriam pela via democrática. Os primeiros prevaleceram e tomaram o poder pela força e os últimos deram origem a social-democracia. Mas eles queriam a mesma coisa.

O socialismo fracassou em todas as ocasiões em que foi testado. Mas, como disse o Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central), é como o vampiro da meia-noite: ressuscita quando menos se espera, com outras roupagens. Há alguns anos ressurgiu na América Latina travestido de socialismo bolivariano e fez esse estrago no continente.

BBC Brasil – Há uma social-democracia forte na Europa, com relativo sucesso.

Rocha – Muita gente cita os países escandinavos como social-democracia. São países que foram muito prósperos enquanto eram capitalistas, se transformaram em social-democracia e estagnaram. É o capitalismo democrático que gera prosperidade porque liberta o espírito gerador de riqueza natural do ser humano.

BBC Brasil – A crise de 2008 não mostrou que o mercado com muito poder e pouca regulação também pode trazer problemas?

Rocha – Não defendo o Estado inexistente. Defendo o Estado mínimo, com uma atuação na regulação mínima. O mercado é como um cão farejador, que tem um faro mais apurado que o do ser humano. O bom caçador usa isso para encontrar seu caminho, mas não é o cachorro quem manda.

[…]

BBC Brasil – E a corrupção no setor privado? A própria Lava Jato revelou que também há empresários corruptos.

Rocha – Tem empresários e empresários. Não confunda Flávio Rocha, um empresário de mercado que acorda de manhã e calcula como produzir um vestido ao melhor custo para a dona Maria, com o empresário que acorda e se pergunta para quem tem de dar propina para conseguir uma obra pública ou fazer uma plataforma de petróleo superfaturada. São duas coisas diferentes: o empresário de mercado e o empresário de conluio, que é o câncer desse estado hipertrofiado. Um fator de aumento da corrupção do Estado já tão corrompido.

A livre concorrência ajuda a acabar com a corrupção. Por exemplo, se eu tiver na Riachuelo um comprador de gravatas corrupto que tenha feito um acerto com o fornecedor, a gravata será mais cara e a Riachuelo vai perder participação no mercado. Isso não acontece na Petrobras.

BBC Brasil – O senhor defende que papel para o Estado?

Rocha- Um país como o nosso precisa de um Estado de 20% a 25% do PIB. Na última década, 18 pontos percentuais de economia informal se formalizou no Brasil. Isso ajudou a elevar a produtividade desses setores, mas também houve um repasse maior de dinheiro para o setor mais ineficiente do pais – o estatal. Se lá atrás tivéssemos colocado um freio na participação do Estado no PIB e aproveitado essa maior receita para reduzir as alíquotas (de impostos) não tenho dúvidas que a China seria aqui. Estaríamos crescendo.

BBC Brasil – De onde cortar nos gastos públicos?

Rocha – Por exemplo, no meu estado, o Rio Grande do Norte, o grande escândalo agora é que há quase 3 mil funcionários (públicos) fantasmas, com salários que chegam a R$ 60 mil. Isso quebra definitivamente a crença de alguns de que o Estado seria um Robin Hood que pega dos ricos para distribuir aos pobres. É o Robin Hood às avessas. Tira de uma população extremamente pobre, como a do Rio Grande do Norte, para alimentar marajás.

PS do Viomundo: Flávio Rocha é uma piada. Começa que não é possível levar a sério uma pessoa que fala de si mesma em terceira pessoa. Segundo: sem a interferência mínima do Estado com políticas de distribuição de renda, num país de renda extremamente concentrada como o Brasil, o consumidor dos produtos da Riachuelo simplesmente desaparece! Ou ele pretende vender Louis Vuitton? Terceiro: o Estado brasileiro sempre foi eficientíssimo para perpetuar a desigualdade e beneficiar, acima de tudo, gente como o próprio Flávio Rocha. Portanto, ele quer acabar com o “Estado” dos outros, muitos dos quais consumidores de suas lojas! Com este empresariado o Brasil jamais irá além da esquina.

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RIACHUELO TEM QUEDA DE MAIS DE 44% NO LUCRO NO TRIMESTRE

Por Camila Mendonça, Novarejo

A Guararapes, companhia da varejista de moda Riachuelo, reportou uma queda de 44,4% no lucro líquido no terceiro trimestre deste ano, em comparação ao mesmo trimestre do ano passado. Ao todo, a rede acumulou R$ 17,8 milhões de lucro, ante os R$ 32 milhões do trimestre de 2015.

Apesar da queda, a varejista conseguiu vender mais: a receita líquida ficou 5,5% maior, totalizando R$ 1,39 bilhão. As novas lojas ajudaram a aumentar o resultado da empresa, uma vez que as vendas das mesmas lojas – aquelas abertas há mais de um ano – caíram 2,2%.

A empresa encerrou o trimestre com mais lojas: 289 ante as 274 operações do mesmo trimestre do ano passado. “O processo de expansão reflete o objetivo da Riachuelo de conquistar novos mercados e consolidar suas posições regionais por meio da inauguração e remodelação de unidades. Vale lembrar que o período de maturação de uma nova loja é de aproximadamente cinco anos, o que torna tais áreas um elemento relevante na definição do ritmo de crescimento das vendas da Companhia”, destacou a empresa em relatório.

Ao final do terceiro trimestre de 2016, a Riachuelo contava com 49% de sua área de vendas com idade entre um e cinco anos.

Os produtos feitos pela própria empresa, via indústria Guararapes, representaram 31,8% da venda total da Riachuelo neste terceiro trimestre. A estratégia, segundo a empresa, é focar a produção da própria indústria em itens de maior valor agregado.

Ao todo, a Guararapes produziu 10,8 milhões de peças ante 9,7 milhões de itens registrados no mesmo trimestre de 2015. No período, a Guararapes faturou R$ 978,4 milhões para a Riachuelo no período acumulado de janeiro a setembro de 2016, 1,4% a mais que o apurado no mesmo período do ano anterior.

Já a receita da operação financeira da marca totalizou R$ 434 milhões, 10,8% maior que o registrado no mesmo período do ano anterior.

Em relação aos investimentos da companhia, eles somaram R$ 140,9 milhões entre janeiro e setembro – o valor é menos que a metade dos R$ 381,6 milhões investidos no mesmo período do ano passado. Do montante investido neste período, 87% foram destinados à Riachuelo para abertura de novas lojas e centros de distribuição.

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Publicação de: Viomundo

Golpe na Fiocruz: Governo Temer nomeia para a presidência candidata derrotada. A doutora Tania se aliou mesmo aos golpistas contra instituição? A troco de quê?

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por Conceição Lemes

Há 25 anos a presidência da Fundação Oswaldo Cruz é escolhida por eleição direta junto a seus trabalhadores, pesquisadores e professores.

De 23 a 25 de novembro, 4.415 servidores  de todas as unidades no Brasil  elegeram a doutora Nísia Trindade, atual vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação, para o mandato 2017-2020.

Houve um comparecimento às urnas de 82,1% da comunidade.

Nísia recebeu 2.556 votos em primeira opção, ou seja, 59,7%.

Em segundo lugar, ficou a doutora Tania Araújo-Jorge, pesquisadora e ex-diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC). Obteve 1.695 votos em primeira opção (39,6%).

Em 28 de novembro, a comissão eleitoral apresentou o resultado ao Conselho Deliberativo da Fiocruz, que o homologou.

O resultado foi enviado ao ministro da Saúde, o engenheiro Ricardo Barros, que decidiu nomear a candidata derrotada.

É um golpe contra a Fiocruz, que, às 14h, realizará coletiva de imprensa, para se manifestar sobre a crise institucional que se instalou por conta da possível nomeação da candidata derrotada nas eleições para a presidência da Fiocruz.

Estarão presentes o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, e diretores de unidades técnico-científicas da fundação.

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Respeite a Democracia na Fiocruz

 

Ana Maria Costa

Diretora do Cebes .

Professora de Medicina da ESCS/DF

 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é uma instituição que nos orgulha pela excelência de trabalho nos campos da pesquisa, ensino e tecnologia em saúde.

Há 25 anos a Fiocruz elege seus dirigentes e com isso confere legitimidade e sintonia a um projeto que engrandece e ajuda na soberania do Brasil.

Neste 30 de dezembro de 2016, amanhecemos com a amarga notícia de que o governo ilegítimo, usurpador, golpista, irá nomear a candidata derrotada à presidência da Fiocruz.

Demonstração inequívoca de golpe de 2016 veio para acabar definitivamente com todas as manifestações de democracia assim como com os seus resquícios.

Há dois meses, Nísia Trindade foi eleita para presidir a instituição.

Hoje, soubemos que o cargo democraticamente conquistado por Tania será ocupado pela candidata derrotada no processo eleitoral.

Não acreditamos que uma pesquisadora e acadêmica do porte de Tania tenha se aliado aos golpistas.

Ainda esperamos que, de forma digna e democrática, Tania decline desta designação.

Lamentavelmente, a informação que circula no meio é de que a derrotada trabalhou bastante por essa nomeação, mesmo contra a vontade da maioria dos eleitores.

Só um posicionamento ético, comprometido e democrático de Tania Araújo Jorge poderá desfazer esta nefasta apreciação da comunidade da Fiocruz.

Mas, afinal, o que pode estar em jogo além do profundo desrespeito à democracia ao processo interno da Fiocruz, que é um golpe contra a instituição?

De um lado, o precedente criado por essa arbitrariedade praticada contra a Fiocruz fere a   autonomia universitária conquistada por nossas instituições de ensino e pesquisa .

De outro lado, e não menos importante, os possíveis acordos quanto ao próprio papel almejado para a Fiocruz no bojo da política setorial pretendida pelo atual governo.

A Fiocruz tem tido um papel estratégico na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) tanto como formadora de recursos humanos como na produção de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Por conta disso, o Brasil tem suficiência de insumos estratégicos em saúde, condição essencial para a soberania e sobrevivência do projeto universalista constitucional definido para a saúde.

Mas as evidências recentes demonstradas no discurso e nas práticas do atual governo não convergem para a consolidação do SUS como sistema universal, integral e de qualidade.

O dramático momento vivido pelo projeto político desenhado para o país expõe a vulnerabilidade  dos princípios do SUS.

Nesse cenário já se falou que a Fiocruz deve voltar-se para o mercado, abandonando sua vocação de produtora de serviços e insumos para o setor publico da saúde.

Difícil acreditar que alguém que fez carreira na instituição, como é o caso de Tania, possa concordar  com o projeto do governo de subverter a missão da Fiocruz  diante da sociedade nacional.

Apenas alguém legitimamente eleito poderia estabelecer um contraponto que mantenha e fortaleça sua vocação institucional.

Adotar a contramão da tradição democrática da Fiocruz construída desde a redemocratização do país desmonta a fortaleza que conduziu a Fiocruz a se tornar o que é hoje: uma instituição virtuosamente nacional e comprometida com a ciência, tecnologia e a saúde pública.

Um orgulho nacional.

Não sobram dúvidas de que estamos diante da ruptura de todas as nossas instituições democráticas. A caixa de Pandora está dilacerada e o País mergulha em incertezas  e obscuridade.

 

 

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Publicação de: Viomundo

Julian Rodrigues: Eles têm um plano, e daí? 2017 vai ser um novo ano

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2017 vai ser outro ano

Julian Rodrigues, especial para o Viomundo

É quase impossível fugir das retrospectivas e balanços anuais em fins de dezembro. 2016 já entrou para a história como o ano do golpe de novo tipo no Brasil.

Mas eu não quero falar da onda conservadora, nem do desmonte acelerado dos direitos sociais e trabalhistas que o governo golpista vem promovendo.

Muito menos dos índices recordes de desemprego ou da recessão.

Também não quero falar do papel da mídia, do Ministério Público e do Judiciário nesse processo de destruição das empresas nacionais, de entrega do pré-sal, de desmantelamento do Estado – que concomitantemente visa destruir o PT, Lula e a esquerda brasileira.

O que eu quero é pensar no amanhã. Partir da análise do cenário atual para projetar o que pode vir a ser.

Eles têm um plano, e daí?

Não vamos nos iludir. O golpe não foi feito para acabar em 2018.

As elites nacionais, articuladas com os interesses dos EUA têm um plano bem nítido, de longo prazo. Pretendem aplicar um programa radical de privatizações, retirada de direitos dos trabalhadores e destruição do embrião de Estado de bem-estar social, que vinha sendo construído a partir da Constituição de 1988.

Os objetivos são aumentar a taxa de lucro dos empresários, manter os extraordinários ganhos dos rentistas, alinhar novamente o Brasil aos interesses norte-americanos, entregar nossas riquezas às corporações estrangeiras, aplastar a esquerda, os movimentos sociais e o PT. Sobretudo sonham em interditar (e se possível encarcerar) Lula.

Há muita especulação sobre o golpe dentro do golpe, que seria retirar Temer em 2017 e eleger um novo presidente por via indireta – que não seja da turma do PMDB.

Desejam alguém mais representativo do núcleo duro do golpe (mídia, banqueiros, grande burguesia, Ministério Público/Judiciário). Ou seja, um tucano ou assemelhado.

Uns falam em FHC, outros em Meireles e ultimamente tem circulado a alternativa Nelson Jobim, que teria a vantagem de contar com muita experiência e conexões nos três poderes, além de um suposto trânsito à esquerda.

O que se especula é que Jobim daria uma “limpada” na imagem do governo golpista, afastando de vez a camarilha do PMDB do núcleo do executivo. Assim, poderia ganhar alguma legitimidade para continuar implementando as medidas neoliberais e construir a próxima etapa do golpe.

Sim, porque é muito arriscado para eles uma eleição em 2018, em meio à grave crise econômica, mesmo se tirarem Lula da cédula.

Eleições somente com mudanças na regras do jogo que afastem qualquer possibilidade das forças direitistas serem derrotadas. Pode ser parlamentarismo, pode ser qualquer outro novo arranjo institucional.

Há várias propostas sendo incubadas.

O conhecido deputado da Miro Teixeira (Rede-RJ), com notórios vínculos com a Globo, articulou duas diferentes emendas constitucionais.

Uma delas viabilizaria as eleições diretas em 2017 no caso da queda de Temer.

A outra propõe uma assembleia constituinte, com amplos poderes, a partir de fevereiro de 2017. Um perigo!

Já reacionários como Ronaldo Caiado (DEM-GO) andaram falando em eleições diretas. Enquanto isso, a Globo e o braço MP-Judiciário aceleram a fritura de Temer e da quadrilha peemedebista. O que, por outro lado, faz o traíra correr ainda mais para mostrar serviço à burguesia, acelerando as propostas das reformas trabalhista e da previdência.

Enquanto eles não se decidem, aumenta o tom da disputa entre o STF e o Congresso Nacional; entre as corporações do sistema de justiça e o velho centrão fisiológico e com o legislativo, cada vez mais desmoralizado.

E a crise econômica vai se agravando, sem perspectiva de melhora. O desemprego chega a 12%.

As classes médias paneleiras vão continuar apoiando o golpe nesse cenário?

E os que melhoraram de vida nos anos dos governos do PT?

E a massa trabalhadora que ainda não se moveu?

Todo mundo vai engolir essa reforma da previdência que acaba, na prática, com o direito à aposentadoria?

A destruição dos direitos trabalhistas vai passar sem reação significativa?

Lula 2017

Mas, não há nada como o passar do tempo, com a permissão do clichê.

Já há sinais de que se inicia – em amplos setores – um lento processo de reavaliação sobre o que aconteceu.

Dilma melhora sua imagem e começa a ser vista em outra perspectiva.

Vai ficando mais nítido que o impeachment foi mesmo um golpe e nada tinha a ver com o combate à corrupção. Cresce a saudade dos anos Lula, como as pesquisas vem mostrando.

Portanto, apesar de atravessarmos a maior ofensiva da direita contra o povo brasileiro desde a redemocratização, existe espaço concreto para reação, para resistência, para o combate.

Não está dado que o ciclo golpista-neoliberal vai durar 20 anos.

A reorganização do campo da esquerda se dará “a quente”, nas ruas, nas mobilizações contra a reforma trabalhista, no fortalecimento da Frente Brasil Popular, em aliança com a Frente Povo Sem Medo.

Mas, para essa reorganização funcionar é preciso uma alternativa prática. Uma palavra de ordem e um objetivo tático que unifique a maioria do campo democrático-popular.

A palavra de ordem é Diretas Já.

Para além de servir de bandeira de agitação política é uma orientação para mobilizações, mirando a pressão sobre o Congresso para a aprovação da PEC das diretas no Congresso, nesse cenário de crise do governo Temer.

Mas, do que adianta eleições em 2017 sem que exista a perspectiva concreta de derrotar os golpistas nas urnas com um programa de desenvolvimento econômico e reformas estruturais?

Daí que é preciso lançar a campanha Lula presidente, já.

A candidatura Lula é a única que pode colocar em movimento o campo democrático-popular apontando uma alternativa de projeto para tirar o Brasil da crise.

Além disso, ao começar a campanha Lula presidente podemos colocar na defensiva Moro e seus procuradores coxinhas-entreguistas.

Trata-se de dar visibilidade a uma plataforma política de esquerda, quebrando o monopólio discursivo dos golpistas. Não é sem razão que o Estadão já reagiu em editorial, babando contra a possibilidade de uma nova candidatura de Lula.

Lançar imediatamente uma campanha pela PEC das diretas e construir a candidatura Lula vai colocar o campo democrático-popular em movimento, nos permite retomar a ofensiva.

Diretas-Já e Lula-2017 dão norte, horizonte, perspectiva para todo o país. E combatem a dispersão, a melancolia, a confusão, a “bateção de cabeça” nos setores progressistas.

Dá uma perspectiva propositiva-palpável, viável, nítida para a luta social, que não pode ser apenas reativa.

Lula pode ser a reinvenção de si mesmo e de seu legado.

Se sua candidatura for construída com amplo debate permitirá a atualização do projeto democrático-popular. Sua candidatura também abre a possibilidade de uma renovação programática do PT, feita nas bases, nas ruas e palanques.

Balanço crítico dos 12 anos de governo e elaboração de uma nova estratégia junto com agitação e mobilização massiva, repactuando com o povão são tarefas do PT e do campo democrático-popular em 2017.

Só Lula tem condições de impulsionar esse processo de reorganização e renovação da esquerda e simultaneamente denunciar o golpe, propor eleições diretas e apresentar às massas uma alternativa para o país.

Então, cantemos com Chico: “amanhã vai ser outro dia”. E 2017 vai ser outro ano.

PS: Portanto, o papel de Lula agora é muito maior do que presidir o PT. O partido precisa fazer um debate, uma  avaliação crítica do último período, renovando sua estratégia e  também montando uma nova direção. Tarefa não pode ser liderada por Lula. Além de ser nosso candidato a presidente da República, ainda tem que se dedicar a  defender-se  da  perseguição de  Moro.

29/12/2016

Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBT e defensor dos direitos humanos é militante do PT-SP.

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Publicação de: Viomundo

Guinada à direita afunda Brasil e Argentina

tango

 

Na primeira década do século XXI, as Américas deram uma guinada para a centro-esquerda. A certa altura da primeira década deste século, a América do Sul chegou a ser quase que exclusivamente progressista. E os Estados Unidos elegeram um presidente negro e social-democrata.

No subcontinente sul-americano, Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Uruguai e Venezuela elegeram e mantiveram no poder por cerca de uma década governos de centro-esquerda que, mais por suas virtudes do que por seus inevitáveis defeitos, passaram a sofrer oposição incessante dos grandes grupos de mídia locais, edificados nesses países durante as várias ditaduras de direita que se abateram sobre a região no século XX.

Na América do Sul, a onda rosa só não atingiu plenamente o Peru – que chegou a flertar com um governo de centro-esquerda que acabou fracassando por ter evitado contrariar interesses – e o Paraguai – que sofreu um golpe de Estado.

A Colômbia fica fora da equação por continuar sendo o eterno quintal dos Estados Unidos, o que inviabiliza qualquer fortalecimento mais consistente à esquerda.

Após uma década rosa nas Américas, as coisas começaram a mudar por conta de um movimento político oriundo do mundo árabe, onde governos quase sempre estáveis e autoritários iam sendo derrubados por grandes manifestações envolvendo primordialmente jovens com pensamento de esquerda, muitos dos quais simpatizantes do anarquismo, ideologia que se opõe a todo tipo de hierarquia política.

De ponta a ponta, a América do Sul começou a sofrer com grandes manifestações que exigiam nem se sabia bem o que, eis que a região atravessava um período inédito de prosperidade que vinha mitigando seus níveis estratosféricos de pobreza e concentração de renda, gerando novas classes médias que pela primeira vez viam filhos ascender ao ensino superior, que compravam vivendas próprias, que passaram a ver o mundo de cima de aviões antes proibidos para a esmagadora maioria dos sul-americanos.

O projeto de soerguimento social das Américas viu ocorrerem desde a tentativa de implantação de um sistema público de saúde nos Estados Unidos até uma reengenharia social nos países sul-americanos que colocava suas novas classes-médias como protagonistas da geopolítica da região.

Contudo, o movimento dito “primavera árabe”, assim como por lá, por aqui deu muito errado. Os governos progressistas sul-americanos se desmoralizaram com imagens de multidões gigantescas vertendo demandas genéricas, já que os novos regimes progressistas vinham promovendo justiça social a grande velocidade.

O enfraquecimento desses governos e a possibilidade de instabilidade política terminou o serviço de deterioração da América do Sul. Com a instabilidade, os investimentos sumiram e uma recessão começou a se instalar pelos países sul-americanos.

O enfraquecimento dos governos progressistas sul-americanos ocorreu em níveis levemente diferentes nos países da região. No Brasil, em 2014, a social-democrata Dilma Rousseff reelegeu-se por muito pouco e, na Argentina, o conservador Maurício Macri elegeu-se da mesma forma: por pouco.

Muitos dizem que a fórmula argentina foi melhor porque poupou o país vizinho do processo de sabotagem que o fortalecimento da direita lhe permitiu no Brasil.

A partir da instalação da nova legislatura do quadriênio 2015-2018, o Congresso passou a negar toda e qualquer medida que o governo petista reeleito propusesse à Câmara dos Deputados, agora comandada por um inimigo político declarado da presidente da República e de seu partido.

O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha está preso por suspeita (mais do que fundada) de estar tentando atrapalhar as investigações sobre seu envolvimento com corrupção, mas ele deveria estar preso, isso sim, por ter paralisado o Brasil com vistas aos seus interesses políticos, pois a paralisação da Câmara se deu sob sua batuta.

Tanto no Brasil quanto na Argentina, governos conservadores sucederam governos progressistas. A paralisia econômica gerada pela crise política – que, no Brasil, começou em 2013 – descontentou o eleitorado desses países antes de trocarem de comando. Lá, como aqui, os conservadores chegaram ao poder em 2016 prometendo milagres.

No Brasil, os golpistas levaram tão longe a sabotagem da economia com vistas a derrubarem Dilma que não conseguem parar a pedra que empurraram montanha abaixo nos últimos anos.

Em razão de o governo conservador de Michel Temer não ter a mesma legitimidade do governo do homólogo argentino Maurício Macri, não pôde avançar tanto em medidas draconianas como as tomadas no país vizinho. Ainda assim, as medidas temerárias já começam a se materializar na mesma direção que na Argentina.

A aprovação do teto de gastos e a reforma trabalhista se farão sentir em breve, assim como as medidas na mesma linha estão se fazendo sentir na argentina. Isso sem falar na privataria, que vai recomeçar em breve.

No Brasil, os golpistas venderam ao povo que bastaria tirar Dilma do cargo sob qualquer pretexto que tudo se resolveria magicamente. Na Argentina, aconteceu a mesma coisa. A única – e gigantesca – diferença é que, lá, a direita voltou ao poder através do voto e, aqui, através de um golpe tosco, grosseiro, desfechado sob uma desculpa esfarrapada.

Tanto lá quanto aqui, porém, a direita está criando uma situação muito pior do que encontrou e que vai se eternizar tanto mais quanto essa gente ficar no poder. Isso porque os governos dos dois países apostam em sangrar o paciente argumentando que irá curá-lo, como na Idade Média.

Tanto na Argentina quanto no Brasil, o remédio pregado pelos novos governos que o povo escolheu – respectivamente, por ação ou omissão – foi o de o Estado descer o chicote no lombo popular.

Enquanto Temer começa a fazer as tais “coisas impopulares” sustentando a teoria maluca de que governantes impopulares “podem” e “devem” maltratar mais o povo que os populares, na Argentina as medidas malucas de sangrar o paciente começaram lá no início do ano.

O resultado foi trágico. O país está afundando tanto quanto o nosso. A mudança de governo, a guinada à direita, atinge mais os povos de lá e daqui porque o colchão social dos governos progressistas começa a ser desmontado.

Como se sabe, economias se alternam entre expansão e contração. O que fazer na hora da contração é que separa os países civilizados dos países desumanos com seu povo.

Reportagem do insuspeito UOL divulgada nesta quinta-feira 29 revela o tamanho da encrenca em que os argentinos, assim como os brasileiros, se meteram. Colocaram no poder gente que fará a crise bater mais duro nos mais pobres e mais suavemente nos mais ricos.

Detalhe: tanto na Argentina quanto no Brasil, há muito, muito, muito mais pobre que rico.

O índice oficial de pobreza após um ano de “ajustes” de Macri acaba de ser divulgado pelo governo: é de 32%, o que significaria, segundo as centrais sindicais argentinas, que ao menos 1,4 milhão de argentinos agora são classificados como pobres.

De acordo com a imprensa argentina, a demora em reativar a economia é um dos fatores que levou Macri a demitir o ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, nesta semana.

Não poderia ser diferente. As medidas tomadas pelos neoliberais daqui ou de lá são mais do mesmo que era feito antes de a esquerda chegar ao poder na região e nele se manter por longo tempo. O desapreço da direita pelo social foi a causa ontem e será hoje.

Na Argentina, Macri começou botando pra quebrar. Com muito mais ímpeto que os golpistas brasileiros, que não têm a mesma legitimidade e não podem inverter com tanta facilidade o que o povo decidiu nas urnas em 2014, ou seja, o contrário das tais “coisas impopulares”.

Segundo a matéria do UOL, “Macri conseguiu implementar em boa medida seu plano econômico de liberalização da economia”. Assim como está acontecendo com Temer aqui no Brasil, lá, com apoio da mídia, do empresariado e de um Congresso muito mais conservador do que nos bons tempos, foi possível castigar duramente o povo.

“A eliminação dos controles sobre o câmbio e sobre os preços de mercadorias e os ajustes de até 500% das tarifas de serviços públicos como água, energia elétrica, gás e transporte também fizeram parte desse pacote de medidas adotadas pelo presidente logo no início de seu mandato. Além disso, o governo adotou um corte de gastos, com a demissão de quase 150 mil funcionários públicos”, diz a reportagem.

É por isso que este Blog vem dizendo que é questão de tempo a queda dos golpistas e a desmoralização dos fascistas que sustentam essa ideologia desumana que prega que pisotear os mais pobres vai melhorar o país.

O diabo é que o estrago que essa gente fará nos próximos dois anos será imenso. Vão vender todo patrimônio público a preço de banana, vão doar a Petrobrás, vão implantar regras punitivas ao consumidor que passarão a ser ainda mais abusados pelas empresas de telefonia, planos de saúde, cartão de crédito etc., vão exterminar direitos trabalhistas…

A pobreza e a miséria irão crescer muito no Brasil nos próximos anos devido às políticas públicas inumanas do PSDB e do PMDB. Com isso, a criminalidade e a violência subirão na mesma proporção.

O duro é esperar sensatez de um povo que foi à rua protestar em 2013 sem razões concretas e que, com isso, acabou desencadeando um processo no qual está perdendo tudo o que conquistou quando era governado por gente com sensibilidade social e que  pensava o país pelo ângulo de sua vocação natural para potência regional.

Porém, dizem que quando as pessoas não aprendem pelo amor acabam tendo que aprender pela dor. O blábláblá antipetista ainda vai render por mais alguns meses, talvez até meados do ano que vem. Dali em diante, o Brasil vai começar a acordar. E esse gigante vai acordar muito mal-humorado.

Publicação de: Blog da Cidadania

Igor Fuser: Disputa por delícias típicas da cozinha árabe revela a essência racista de Israel

falafel

Falafel é um prato tipico árabe, delicioso. Trata-se de um bolinho frito de grão-de-bico bem temperado / Reprodução

Disputa pelo falafel revela a essência racista de Israel

Igor Fuser, no Brasil de Fato

Em um mundo dilacerado por disputas geopolíticas, pelo racismo e pelas mentiras midiáticas, até mesmo a simples divulgação de uma receita culinária pode esconder — e, para quem fizer a leitura certa, revelar — as estruturas ideológicas criadas para perpetuar as injustiças.

Pelos misteriosos caminhos do facebook, chegaram até a minha tela duas postagens recentes, que remetem ao mesmo assunto — pratos tradicionais da cozinha árabe, apresentados pelos porta-vozes do sionismo como produtos culturais israelenses.

No dia 30 de novembro, o site da Federação Israelita de São Paulo publicou uma nota que começava com a seguinte frase: “Aprenda a fazer falafel, esse bolinho frito de grão-de-bico, bem temperado e saboroso, que faz parte da culinária israelense.”

Pouco depois, no dia 4 de dezembro, a página do consulado de Israel em São Paulo apresentava o halawi [pronuncia-se raleu], iguaria servida desde o início do século passado nas lanchonetes de comida árabe no Brasil, como um “típico doce israelense/árabe feito à base de gergelim”.

Só com muita má-fé, desonestidade mesmo, alguém pode apresentar esses dois quitutes como israelenses.

O falafel é o prato mais popular em todo o mundo árabe.

A origem do nome vem do verbo árabe falfala, que significa “tempero”.

É consumido pelos árabes do Oriente Médio desde que eles se constituíram como povo, na época do profeta Maomé (Mohamed), no século 7, mas historiadores acreditam que já fazia parte da alimentação no Egito dos faraós, milênios antes da Era Cristã.

Quando os primeiros colonos judeus chegaram à Palestina, no final do século 19, vindos da Europa Oriental, eles não tinham o menor contato com a culinária árabe.

Nunca tinham provado o falafel nem o halawi.

Aquela imigração se deu sob o impulso do sionismo, movimento político surgido na Europa, com o objetivo de construir na Palestina um país apenas para os judeus.

Desde o início, os colonos sionistas formaram comunidades separadas na Palestina.

Viviam à parte, sem se misturar com os árabes, aos quais desprezavam. Mas, espertos que eram, logo incorporaram o delicioso falafel à sua dieta cotidiana.

Pode parecer picuinha denunciar — como fazem intelectuais e ativistas árabes — a apropriação simbólica desses pratos pelos israelenses.

Porém os palestinos, vale lembrar, são um povo árabe, e a preservação da sua cultura é parte inseparável da defesa do território.

Em 1948, os colonos judeus se apoderaram, pela força, de 80% das terras da Palestina, embora constituíssem menos de 30% da população, e lá instalaram o Estado de Israel.

A maioria dos habitantes árabes foi expulsa e passou a viver, na condição de refugiados, em países vizinhos.

Para “convencer” essas famílias a irem embora, as milícias sionistas invadiam aldeias palestinas e massacravam seus habitantes.

Moradores do sexo masculino entre 10 e 50 anos de idade eram separados dos demais e executados, perante os olhos da comunidade. Os demais fugiam, apavorados.

Assim nasceu Israel.

Os 20% do território palestino que ficaram de fora — a Cisjordânia e a Faixa de Gaza — foram ocupados depois pelos israelenses, por meio da guerra, em 1967, e até hoje mantidos sob seu controle.

Lá vigora um regime de segregação racial semelhante ao apartheid da África do Sul.

Nos territórios ocupados, Israel instalou centenas de assentamentos judaicos, localizados nas terras mais férteis, no alto das colinas e ao redor dos mananciais de água, expulsando os moradores locais.

Ligando esses assentamentos entre si e a Israel, construiu-se uma moderna rede de estradas, cercadas por arame eletrificado, por onde os palestinos são proibidos de trafegar.

O deslocamento dos moradores locais se dá de forma precária, condicionado à passagem por centenas de postos de controle do exército israelense.

Lá os palestinos são humilhados diariamente, submetidos a longas esperas ou à proibição da passagem.

Doentes morrem nas ambulâncias bloqueadas nesses check points, gestantes dão à luz e jovens veem frustrado o seu direito à educação por não conseguirem manter a frequência às aulas.

Em Israel propriamente dito, os palestinos constituem uma minoria subalterna.

São moradores não judeus no único país do mundo que define a cidadania por um critério religioso.

Na escola, as crianças palestinas são forçadas estudar uma versão deformada da “história” dos judeus, que glorifica a ocupação sionista da Palestina, ignorando a cultura islâmica e a riquíssima tradição histórica dos povos árabes.

O curioso é que, ao mesmo tempo que massacram e marginalizam os árabes, apoderando-se das suas terras, os israelenses também se apropriam, sistematicamente, do precioso legado cultural e material que encontraram na Palestina.

O símbolo visual de Israel, presente nos cartões postais, nos cartazes e nas camisetas vendidas aos turistas, não é nada que os sionistas tenham construído nos cem anos de usurpação.

É a imagem do Domo da Pedra, um lindíssimo templo religioso muçulmano, situado no coração de Jerusalém, uma cidade anexada, ilegalmente, por Israel.

Em Tel Aviv, a maior cidade israelense, o bairro de maior interesse, repleto de ateliês de artistas, butiques descoladas e charmosos cafés, é Al Jaffa, com suas construções pintadas de branco e as vielas labirínticas no estilo dos típicos centros urbanos árabes.

Os antigos moradores foram todos expulsos em 1948, sem indenização, sem nada.

Eu percorri aquelas ruas em 1991, na única vez que visitei Israel, como jornalista.

Fazia parte de um grupo convidado pelo governo de lá, recepcionado por judeus brasileiros que haviam imigrado e se tornado cidadãos israelenses.

Num dos vários passeios a que eles nos levaram, sempre muito gentis, percorremos a cidade velha de Jerusalém, com suas lojinhas de lembranças e badulaques para turistas.

Os donos, comerciantes árabes, nos abordavam na rua, oferecendo seus produtos nos mais variados idiomas.

Nosso guia, um brasileiro-israelense, ficou muito irritado com a cena e tentou nos persuadir a boicotar aqueles humildes vendedores.

“Não, não comprem nada desses árabes”, dizia ele. “Amanhã vamos visitar a parte judaica de Jerusalém e vocês poderão comprar as mesmas coisas por lá”.

Por aí se vê que a polêmica em torno do falafel e do halawi, como tudo o que diz respeito ao conflito palestino-israelense, nada tem de inocente.

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Publicação de: Viomundo

Santayana: A engenharia brasileira está morta, cremada no altar do entreguismo

 Moro, Justiça entreguismo
Nota de falecimento: a engenharia brasileira está morta

A estratégia geopolítica de nações poderosas que querem nos enterrar não se resume a fortalecer sua própria engenharia e suas maiores empresas. Inclui sabotar as empresas e a engenharia de outros países

A Engenharia Brasileira está morta.

Será cremada no altar da Jurisprudência da Destruição, do entreguismo e da ortodoxia econômica.

Suas cinzas serão sepultadas em hora e local a serem anunciados no decorrer deste ano de 2017.

Em qualquer país minimamente avançado, a engenharia é protegida e reverenciada como o outro nome do poder, da prosperidade e do desenvolvimento.

Não há países que tenham chegado a algum lugar sem apoiar soberana e decisivamente sua engenharia.

Assim como não existem nações que tenham crescido econômica e geopoliticamente sabotando, inviabilizando, destruindo, execrando, ensinando seu povo a desprezar, odiar e demonizar essa área, seus técnicos, trabalhadores, suas empresas, projetos, líderes e empresários, como o Brasil está fazendo agora.

Sem engenharia, os soviéticos não teriam derrotado a Alemanha nazista, com suas armadilhas para Panzers e seus portentosos tanques T-34.

Nem enviado o primeiro satélite artificial, o Sputnik, para a órbita terrestre, nem feito de Yuri Gagarin o primeiro homem a viajar pelo espaço.

Sem engenharia, os Estados Unidos não teriam construído suas pontes e arranha-céus, monumentos inseparáveis da mística do american way of life no século 20.

Nem produzido a primeira bomba atômica, ou chegado à lua em menos de 10 anos, a partir do desafio estabelecido pelo presidente John Kennedy em 1961.

Desde a consolidação do Império Britânico, ela mesma filha direta, dileta, da Revolução Industrial inglesa; desde a substituição de importações pelos Estados Unidos após a independência, e pela URSS, depois da Revolução de Outubro de 1917, o mundo sabe: não existem nações dignas desse nome que consigam responder a questões como para onde avançar, como avançar, quando avançar, sem a ajuda da engenharia.

Como fez Juscelino Kubitschek, por exemplo, com o binômio “Energia e Transporte” e seus “50 anos em 5”, e os governos militares que — embora o tivessem combatido e perseguido em várias ocasiões — o seguiram na adoção do planejamento como instrumento de administração pública e no apoio a grandes empresas brasileiras para a implementação de grandes projetos nacionais.

Empresas e grupos que estão sendo destruídos, agora, pelo ódio, a pressão e a calúnia, como se tivessem sido atingidos por uma devastadora bomba de nêutrons.

Com a maior parte de seus executivos presos em algum momento, as maiores empreiteiras do país foram levadas a avalizar a transformação de doações legais de campanha e de caixa dois em propina — retroativamente, nos últimos três anos.

A aceitar, na ausência de provas cabais de pagamentos de corrupção na escala bilionária apresentada pela imprensa e aventada pelo Ministério Público a todo momento, a imposição de multas punitivas “civis” a título de nebulosas “indenizações por danos morais coletivos” da ordem estratosférica de bilhões de dólares.

A render-se a discutíveis acordos de delação premiada impostos por uma operação que já acarretou para o país — com a desculpa do combate à corrupção — R$ 140 bilhões em prejuízo, a demissão milhares de trabalhadores, a interrupção de dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa, a quebra de milhares de acionistas, investidores e fornecedores.

Diante de tudo isso, não podemos fazer mais do que comunicar o falecimento da engenharia brasileira, famosa por ter erguido obras pelo mundo inteiro, de rodovias no deserto mauritaniano a ferrovias e sistemas de irrigação no Iraque; passando pela perfuração de galerias e túneis sob as montanhas dos Andes; pelo desenvolvimento de sistemas de resfriamento contínuo de concreto para a construção de Itaipu; ou pela edificação de enormes hidrelétricas na África Subsaariana.

A engenharia nacional está perecendo.

Foi ferida de morte por um sistema judiciário que pretende condenar, a priori, qualquer contato entre empresas privadas e o setor público, e desenvolveu uma Jurisprudência da Destruição de caráter descaradamente político, que não concebe punir corruptos sem destruir grandes empresas, desempregar milhares de pais de família, interromper e destroçar dezenas de projetos estratégicos.

Um sistema judiciário que acredita que deve punir, implacável e estupidamente, não apenas as pessoas físicas, mas também as jurídicas, não interessando se esses grupos possuem tecnologia e conhecimento estratégicos, desenvolvidos ao longo de anos de experiência e aprendizado, se estão envolvidos em projetos vitais para o desenvolvimento e a segurança nacional, se deles dependem, para sobreviver, milhões de brasileiros.

A engenharia brasileira faleceu, com seus escritórios de detalhamento de projetos, suas fábricas de bens de capital, seus estaleiros de montagem de navios e plataformas de petróleo fechados, suas linhas de crédito encarecidas ou cortadas, seus ativos vendidos na bacia das almas e seus canteiros de obras abandonados.

E o seu sepultamento está marcado para algum momento de 2017.

Será sacrificada no altar da estúpida manipulação midiática de factoides econômicos, com atitudes desastrosas como a antecipação suicida pelo BNDES — em plena recessão — do pagamento de R$ 100 bilhões ao Tesouro.

Um dinheiro que poderia ser imediatamente aplicado em infraestrutura, vai em troca de uma insignificante, irrelevante, pouco mais que simbólica redução de 1% na dívida pública, quando, sem fazer alarde, os dois últimos governos reduziram a Dívida Nacional Bruta de 80% em 2002 para 67% em 2015, e a Dívida Líquida de 60% para 35% no mesmo período, pagando US$ 40 bilhões devidos ao FMI, e economizando mais de US$ 370 bilhões em reservas internacionais nos anos seguintes.

A engenharia brasileira será sepultada, ou cremada, porque não pode mais sobreviver, a longo prazo, em um país que aceitou aumentar os gastos públicos apenas pelo índice de inflação do ano anterior, durante os próximos 20 anos, engessando estrategicamente o seu desenvolvimento, com uma imbecil e limitante camisa de força, enquanto outros países e regiões, como os Estados Unidos e a Europa, muito mais endividados — e desenvolvidos — do que nós, continuarão a se endividar, a se desenvolver e a se armar cada vez mais, já que seu discurso neoliberal e ortodoxo só serve para enganar e controlar trouxas de terceira categoria como os nossos, e quase nunca é aplicado no caso deles mesmos.

Esse hipócrita discurso para trouxas não é apenas econômico, mas também jurídico. E nesse caso, gera ganhos reais, que vão além da eliminação ou diminuição da concorrência de potenciais competidores em campos como o da engenharia.

Da estratégia geopolítica das nações mais poderosas do mundo, não faz parte apenas fortalecer permanentemente a sua própria engenharia e suas maiores empresas, mas, também, sabotar as empresas e a engenharia de outros países, usando desculpas de diferentes matizes, que são repetidas e multiplicadas pela mídia sabuja e babosa desses mesmos lugares.

Não é outra coisa o que os Estados Unidos fazem por meio de órgãos como o Departamento de Justiça e de iniciativas como o próprio Foreign Corrupt Practices Act, sob o manto do combate à corrupção e da proteção da concorrência.

Leniente com suas próprias companhias, que não pagam mais do que algumas dezenas de milhões de dólares em multa, os Estados Unidos costumam ser muito mais duros com as empresas estrangeiras.

Tanto é que da lista de maiores punições de empresas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos por corrupção em terceiros países — incluídos alguns como Rússia, que os Estados Unidos não querem que avancem com apoio de grupos europeus como a Siemens — não consta nenhuma grande empresa norte-americana de caráter estratégico.

A Lockheed Martin e a Halliburton, por exemplo, pagaram apenas uma fração do que está sendo imposto como punição, agora, à Odebrecht brasileira, responsável pela construção do nosso submarino atômico e do míssil ar-ar da Aeronáutica, entre outros projetos, que deverá desembolsar, junto com a sua subsidiária Braskem, uma multa de mais de R$ 7 bilhões, a mais alta já estabelecida pelo órgão regulador norte-americano contra uma empresa norte-americana ou estrangeira.

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Publicação de: Viomundo

Pastelaria em BH lança promoção sensacional: Fora Temer Golpista!; confira o vídeo

Da Redação

Giani, estudante de Direito, é dona de uma pastelaria em BH.

Ela teve uma idéia sensacional.

Fazer a promoção Fora Temer Golpista.

Ao comprar um pastel de qualquer sabor, basta gritar Fora Temer, para ganhar um suco de presente e “matar a sede de Justiça”.

“A intenção é que o local se torne um ponto de resistência da esquerda”, diz, entusiasmado, o deputado estadual Rogério Correia (PT), que esteve hoje esteve lá.

A promoção vai durar até Temer cair. “Que a democracia prevaleça e a mídia podre pague por tudo o que está causando”, frisa Giani.

A pastelaria fica na rua Platina, 1.380, no Prado.

Além de comer um pastel muito gostoso, lá é possível ler e trocar livros.

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FUP: Com a desculpa de pagar dívidas, governo Temer vende empresas públicas, dando presentes bilionários ao capital estrangeiro

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do Primeira Mão, da FUP

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Tucanada acusou Dilma por “Häagen Dazs”, mas poupa Temer

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A saída de Temer e de seus asseclas tucanos para responder às acusações de estarem incorrendo nas práticas administrativas que ao menos o PSDB e seus pistoleiros condenavam quando estavam na oposição foi insinuar na TV ou dizer claramente nas redes e no rádio que no governo Dilma os suprimentos do avião presidencial também eram caros e sofisticados.

Veio à tona nesta semana notícia de que o Palácio do Planalto abrira licitação para comprar alimentos para viagens aéreas da Presidência. O valor total da contratação: 1,748 milhão de reais. Entre os diversos itens listados, chamou a atenção o pedido por 500 unidades de “sorvete tipo premium” Häagen-Dazs, 120 potes de creme de avelã Nutella e 500 quilos de gelo seco.

Na noite da última terça-feira, o Jornal Nacional noticiou o cancelamento da licitação insinuando, ao fim da reportagem, que no governo anterior também ocorriam gastos iguais.

A revista Veja, por sua vez, noticiou assim o cancelamento da licitação:

“(…) Os detalhes do pregão não repercutiram bem e o governo correu a cancelá-lo nesta terça-feira. O edital foi formulado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI) e publicado no Diário Oficial da União no dia 19 de dezembro. O primeiro a anunciar o seu cancelamento foi o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, por meio do Twitter. Depois, o governo federal enviou uma nota, dizendo que Temer ficou sabendo da licitação hoje pela imprensa (…)”

Note, leitor, que Temer “ficou sabendo da licitação pela imprensa” – provavelmente, pensava que o “Häagen Dazs” era de graça… Vai saber.

Esse comportamento compassivo da Globo ou da Veja, porém, não existiu quando o jornal O Globo opinou, ano passado, que “Dilma” custava ao Brasil “o dobro da rainha Elizabeth II ao Reino Unido”.

Na matéria, o jornal descreve gastos da Presidência da República que existiram desde sempre e continuariam existindo, mas que, naquele texto, limitaram-se a acusar Dilma e Lula de gastar muito com a estrutura presidencial, como se tivessem fugindo ao padrão de gastos dos presidentes da República.

A matéria também cita compras parecidas às de Temer para o avião presidencial. E com custo similar. Daí a matéria do Jornal Nacional lembrar ao distinto público o “governo anterior”.

Porém, quem começou a criticar esses gastos foram os tucanos e seus pistoleiros na mídia quando eles eram feitos por presidentes petistas.

As licitações corriqueiras do cerimonial do Planalto eram criticadas furiosamente por Veja, Globo, por blogueiros tucanos, por golpistas e por partidos políticos que, agora que estão no poder, calam-se sobre o que criticavam, pois passam a fazer igual.

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Sabe o que essa canalhada disse agora sobre gastos iguais de Temer? ABSOLUTAMENTE NADA. Caras-de-pau.

Convenhamos que esses gastos da Presidência não pegam bem para ninguém em tempo algum. Contudo, pega mais mal ainda quando tem gente que critica quando não gosta do presidente que usufrui e se cala quando apoia esse presidente.

Essa fascistada ultradireitista que assola o Brasil tem um costume curioso. Quando os políticos que apoia são pegos com a boca na botija, faz cara de paisagem e solta um quase inaudível “que punam todos”, mas o fato é que essa gente só se dá ao trabalho de criticar suposta corrupção ou supostos abusos se o acusado for petista. Corrupção ou abusos de políticos de direita esses hipócritas nunca tomam a iniciativa de criticar.

Não é correto, não é aceitável que presidentes e demais autoridades gastem tanto dinheiro público com mordomia, com altos salários, mas isso não deveria valer só para presidentes da República.

Será que esse pessoal já viu qual é o custo de um desses procuradores-playboys da Lava Jato ou de um governador de Estado? Se alguém se ocupar dos gastos do governador Geraldo Alckmin, certamente o político mais blindado do Brasil, vai cair de costas.

Na foto abaixo, por exemplo, Sophia Alckmin (no banco), está em Nova Yorque. Foi clicada “ao acaso” ao lado de Kim Kardashian.

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na semana de moda de Nova York. Vários sites de celebridades e amenidades noticiaram o caso como algo pitoresco, divertido. Imagine, porém, se, ao invés de Sophia Alckmin, fosse o Lulinha na foto, ainda por cima “nos esteites”. A elite branca tupiniquim iria à loucura.

O custo do Estado brasileiro é alto não por conta de políticas públicas, mas pelas mordomias que o sujeito granjeia quando assume cargos importantes. Recentemente, o procurador da República Deltan Dallagnol foi flagrado comprando imóveis subsidiados do Minha Casa, Minha vida para revende-los pelo dobro do preço.

Os vencimentos totais brutos de Deltan Dallagnol são de R$ 35.607,28, segundo o Portal da Transparência do Ministério Público Federal, mas neste ano houve um mês – abril –  em que ele recebeu líquidos R$ 67.024,07, com “indenização” e “outras remunerações retroativas/temporárias”, acima do teto constitucional.

Os salários e as mordomias do Judiciário e do Ministério Público são um abuso tão grande quanto o dos gastos da presidência.

Essa história de pegar presidentes para Cristo por conta de seus vencimentos ou por gastos de representação da Presidência – que incluem despesas até com chefes de Estado estrangeiros – é trapaça. Tais gastos são encarados seletivamente conforme o ocupante do cargo que se quer atacar ou proteger. Ninguém deveria dar bola a esses factoides.

 

Publicação de: Blog da Cidadania

Ambulante heroico morreu por se importar onde ninguém se importa

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Sob um forte clima de revolta, o vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas, de 54 anos, foi sepultado terça-feira, 27/12, no cemitério Vale da Paz, em Diadema, Região Metropolitana de São Paulo. Familiares e amigos expressaram indignação com a agressão contra o homem e aos gritos cobraram “justiça” para a dupla flagrada cometendo o crime na noite de Natal.

Pessoas que conviviam diariamente com Ruas destacaram a boa relação que ele mantinha com os moradores de rua da região, fornecendo alimentação a eles com frequência.

A personalidade generosa foi ressaltada como parte da rotina do ambulante. “Ele acordava cedo todos os dias e dava cafezinho e comida aos mendigos. Sempre foi um cara de paz e que ajudava a todos”, disse a dona de casa Maria de Fátima Ruas, de 53 anos, irmã da vítima.

Além dela, Ruas, que era casado há 32 anos, tinha outros dois irmãos.

Morador do Brás, o ambulante trabalhou na entrada da Estação Pedro II do Metrô paulistano nos últimos 20 anos.

Segundo familiares, ele havia decidido prolongar a jornada de trabalho na última semana visando a quitar uma dívida de IPVA. O seu carro havia sido recuperado pela polícia após um roubo sofrido, mas estava detido em razão do débito.

O advogado Marcolino Nunes Pinho, defensor dos dois homens que espancaram até a morte o ambulante, disse que seus clientes alegam que partiram para briga naquela noite porque um deles teve o celular roubado por um grupo de pessoas do lado de fora da estação Pedro 2°, onde as câmeras do Metrô não conseguem captar.

Ainda segundo a defesa, os dois agrediram Ruas porque o vendedor também teria se envolvido na briga. “O senhor Luiz Ruas foi tentar ajudar os travestis, que ele conhecia lá, e deu uma garrafada na cabeça do Alípio. Aí, ficou nervoso porque tomou a garrafada e foi para cima dele. Ele disse que nem entendeu porque aquele senhor se envolveu na confusão. Deu uma garrafa nele”, disse o advogado.

Uma quantidade interminável de pessoas desmente a defesa dos assassinos, mas não importa. O que importa é constatar como a maldade não se contenta, não se satisfaz com nenhum feito hediondo, tentando sempre, sempre ir mais longe, mais fundo.

Ruas foi espancado na noite de Natal por defender uma transexual que estava sendo agredida covardemente por DOIS homens fortes. Aos 53 anos, não precisava se importar. Não era homossexual, não era segurança, não era pago pelo metrô. Mas se importou.

Ao tentar defender um cidadão que habita o degrau mais estigmatizado da escala social, o ambulante praticou o gesto máximo da ideologia cristã: o amor ao próximo, a doação, o sacrifício pelo semelhante não importando o quanto ele seja humilde.

Quantas pessoas neste planeta, na noite de Natal, fizeram alguma coisa tão importante por alguém que não conhecem e com a qual nada têm em comum? Quantas pessoas deram tanto sentido ao que se comemorava naquele dia quanto deu o ambulante Luiz Carlos Ruas?

A brutalidade das agressões que o ambulante heroico sofreu fez com que seu corpo tivesse que ser velado com o caixão fechado, pois foi desfigurado pelos carrascos que lhe decretaram a pena de morte e que ainda contrataram um advogado que agora está acusando a vítima pelo ato bárbaro que seus clientes praticaram.

Ao interpelar dois brutamontes enfurecidos e descontrolados, Ruas precisou de muita coragem. Uma coragem que faltou a todas as outras dezenas de pessoas que passavam pelo local e assistiram inertes ao massacre de um homem que morreu de forma tão apavorante por se importar em uma cidade onde ninguém se importa com ninguém.

*

PS: é revoltante como a mídia acoberta o metrô de São Paulo pela falta de segurança absurda no local. Por que será, não?

*

Publicação de: Blog da Cidadania

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